Doação do arquivo do Teatro da Cornucópia à Biblioteca da FLUL

destaque cornucopia 2O Teatro da Cornucópia e a Faculdade de Letras assinaram, no passado dia 5 de março, um protocolo de doação do Arquivo desta companhia de teatro à FLUL.

O espólio documental do Teatro da Cornucópia, agora confiado à Biblioteca da FLUL, abrange mais de 40 anos da história desta companhia, desde a sua criação por Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, em 1973, até à sua extinção, em dezembro de 2016. Registos fotográficos e videográficos de espetáculos, de ensaios e de montagens, entre outras atividades da companhia, documentação diversificada, como dossiers de espetáculos, de digressões, recortes de imprensa, livros e revistas, registos áudio e outros objetos e espécies constituem o património que ficará à disposição para consulta por investigadores em estudos de teatro e por todos os interessados no conhecimento do legado desta companhia fundamental para a história do teatro português.

A sessão de assinatura do protocolo de doação, decorrida no átrio da Biblioteca, teve a presença do Vice-Reitor da Universidade de Lisboa, António Feijó, em representação do Reitor da Universidade de Lisboa, do Diretor da Faculdade de Letras, Miguel Tamen, do Diretor da Biblioteca da FLUL, José Pedro Serra, do encenador e ator Luis Miguel Cintra e da cenógrafa e figurinista Cristina Reis, do Teatro da Cornucópia, de Maria João Brilhante, Diretora do Centro de Estudos de Teatro (CET) e docente da FLUL, de Maria Helena Serôdio, professora catedrática aposentada da FLUL e investigadora do CET, e de Raquel Raimundo, aluna do curso de Estudos Artísticos- Artes do Espetáculo da Faculdade de Letras.

 

“O Teatro da Cornucópia foi desta casa que nasceu”

“É com gosto que volto ao lugar do “crime”. O Teatro da Cornucópia foi desta casa que nasceu” disse Luis Miguel Cintra à assistência presente na Biblioteca da FLUL, naquele que foi um dos momentos mais aguardados da sessão. Aluno do curso de Filologia Românica no final da década de 1960, Luis Miguel Cintra partilhou memórias indeléveis da vida académica, cultural e política da Faculdade de Letras, e da sua estreia no teatro com o Grupo de Teatro de Letras (GTL), salientando a relevância da sua experiência académica para a génese do Teatro da Cornucópia, “produto de uma vida universitária de excecional convívio entre alunos e alunos e entre professores e alunos de rara qualidade”.

Foi ainda na FLUL que Luis Miguel Cintra encenou a sua primeira peça de teatro, Anfitrião ou Júpiter e Alcmena, de António José da Silva, apresentado pelo GTL em 1969, um espetáculo distinguido com o prémio especial Casa da Imprensa e cujo coletivo viria a formar o Teatro da Cornucópia. “É-me grato lembrar estes antecedentes do Teatro da Cornucópia. A qualidade humana [da] Universidade alimentou-me a esperança de outro país, de outra sociedade” recordou Cintra.

Reconhecido como uma das maiores referências para várias gerações de atores e encenadores, distinguido e agraciado em diversos momentos da sua carreira, o mérito de Luís Miguel Cintra no contexto do teatro português é inquestionável. Intervindo na sessão, Maria Helena Serôdio, especialista em estudos de teatro e investigadora do CET (e autora da obra Questionar Apaixonadamente: O Teatro na Vida de Luís Miguel Cintra, editada pelas edições Cotovia), destacou o contributo singular de Luís Miguel Cintra para o teatro e para a cultura portuguesas, afirmando que este “gesto tão generoso (...) é uma razão e uma consequência do que foi todo o seu brilhante trajecto universitário, cultural e artístico, num país que ainda não se apercebeu de como a grandeza e o valor da criação teatral, no conjunto das artes que convoca e celebra, pode, de facto, elevar e marcar de forma superlativa a sua identidade”

 

Honrar o Teatro da Cornucópia

Agradecendo a Luís Miguel Cintra e a Cristina Reis, o Diretor da Biblioteca, José Pedro Serra, sublinhou “o enorme significado [da] doação de que [a Biblioteca] foi alvo” e a singular importância do arquivo no contexto da sua história, evocando o valor presente no espólio e o compromisso da instituição em honrar este legado e, desse modo, o Teatro da Cornucópia.

A especial relevância do arquivo para a investigação sobre teatro, e, em particular, a relação continuada entre o Teatro da Cornucópia e o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras, traduzida no trabalho dos seus investigadores sobre a atividade da companhia, foram destacados pela Diretora do CET, Maria João Brilhante, que reforçou o “compromisso [do CET] de prosseguir [esse] estudo, agora de forma mais ampliada, pela natureza excepcional dos materiais que compõem este arquivo”.

“Quando o Teatro da Cornucópia é assunto numa conversa (...), é costume ouvir-se os alunos da Faculdade de Letras dizer: sabias que foi na minha faculdade que tudo começou?” afirmou Raquel Raimundo, estudante da licenciatura em Estudos Artísticos- Artes do Espetáculo. A conhecida ligação histórica entre a companhia e a Faculdade de Letras não se desvanece na sucessão de gerações, tendo a aluna salientado a “importância do testemunho para os alunos, tendo em conta a extinção da companhia em 2016, especialmente para a licenciatura em Estudos Artísticos- Artes do Espetáculo”.

A satisfação pela integração do arquivo no acervo da Biblioteca da FLUL ficou também patente nas palavras de Cristina Reis: “Saber que para esta casa se poderia encaminhar alguma parte material do que foi a nossa vida foi, acreditem, cousa rara”. Diretora da companhia, juntamente com Luis Miguel Cintra, Cristina Reis foi responsável pelos cenários e figurinos de quase todos os espetáculos levados à cena desde 1975.

 

“Um património maior da cultura portuguesa”

A sessão de assinatura do protocolo desta doação terminou com as intervenções do Diretor da Faculdade de Letras e do Vice-Reitor da ULisboa. Miguel Tamen saudou o Teatro da Cornucópia pelo gesto de doação, sublinhando que é “muito importante [para a Faculdade de Letras] preservar o registo destas mais de quatro décadas de trabalho extraordinário”, agradecendo a generosidade da companhia em dar ao seu espólio “um destino permanente” na FLUL. O legado foi também celebrado pelo Vice-Reitor, António Feijó, que afirmou que este é “um património maior da cultura portuguesa”.

 

Texto: Marisa Costa, FLUL, DRE- Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas
Fontes: CET- Base; Teatro da Cornucópia; Biblioteca da FLUL