A Universidade de Lisboa, sob proposta da Faculdade de Letras, atribuiu ontem o grau de Doutor Honoris Causa a Manuel Alegre, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. 

A cerimónia começou com o Cortejo Académico, ao som da Marcha Pompa e Circunstância de Edward Elgar, que desceu a escadaria do Salão Nobre até à Aula Magna. Na cerimónia, que foi presidida por Sua Excelência o Presidente da República, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, estiveram em palco a madrinha proponente do Doutoramento Honoris Causa, a Professora Catedrática da FLUL Doutora Paula Morão, Manuel Alegre, o Reitor da Universidade de Lisboa, Professor Doutor António Cruz Serra, a Presidente do Conselho Geral da Universidade de Lisboa, Doutora Leonor Beleza, e o Director da Faculdade de Letras, Professor Doutor Miguel Tamen.

Uma "justa homenagem" da Universidade de Lisboa

Depois da abertura da cerimónia, a Professora Doutora Paula Morão foi a primeira a intervir. A madrinha do laureado destacou a “justa homenagem, que nobilita a instituição”, referindo, também, que “Manuel Alegre não precisa de distinções. Já recebeu os mais altos galardões como cidadão e como escritor. Mas a Universidade portuguesa deve-lhe a homenagem justa, por contar oficialmente no elenco dos seus um daqueles que, sem dúvida, se enquadram nas ‘personalidades eminentes’, nacionais ou estrangeiras”. A Professora Doutora Paula Morão acentuou o alto grau de cidadania e de intelectual que Manuel Alegre representa: “o exemplo ensina e prestigia-nos a nós como instituição”.

Revisitando toda a obra de Manuel Alegre, a Professora Catedrática da FLUL notou que a “profícua obra poética de Manuel Alegre mantém, desde o início, um conjunto de características que fazem deste autor um marco do que de melhor o género lírico em Portugal apresenta, desde a década de sessenta de novecentos até ao presente”. Foi, igualmente, lembrada a “consciência literária visível nas raízes de múltiplas tradições, antigas e modernas, que a sustentam”.

A obra poética de Manuel Alegre foi apresentada como um caso de coesão e de excelência, mas a prosa e os textos ensaísticos do poeta também foram referidos, obra “que se reparte entre a reflexão sobre a escrita e sobre a cidadania”, destacou a Professora Doutora Paula Morão, que acrescentou que Manuel Alegre teve sempre "numa mão a espada, e noutra a pena". Praça da Canção, de 1965, foi uma das obras de Manuel Alegre evocadas na cerimónia, representando “na literatura portuguesa um caso de coesão e consciência”.

Depois da outorga das insígnias de Doutor Honoris Causa a Manuel Alegre, como reconhecimento do mérito e culto de valores fundamentais da Literatura, do Humanismo e da Universidade, o ator Diogo Dória declamou alguns poemas de Manuel Alegre.

“O meu poema rimou com a minha vida”

Manuel Alegre, que tomou a palavra logo depois da declamação de dez dos seus poemas, começou por referir que “é com certa aflição que me apresento perante vós”. Momento de honra e repleto de significado, a entrega do Doutoramento Honoris Causa “deixam-me em grande desassossego”, disse.

Na sua intervenção, Manuel Alegre destacou que escrever foi “sempre um estado de graça. Mesmo nas situações mais difíceis: guerra, prisão, exílio e o irremediável de muitas despedidas e muitas mortes”. O escritor falou sobre si: “vivi sempre a um certo ritmo, um ritmo de escrita e de ação. Sempre que ouvia dizer que a paciência é revolucionária, eu retorquia que revolucionária só a impaciência”. Mas não esqueceu os tempos da universidade, em Coimbra, recordando um episódio particular, quando o então Reitor Braga da Cruz lhe pediu para ligar mais ao curso de Direito, e Manuel Alegre lhe respondeu: “ligo imenso, Magnífico Reitor, mas não tenho tempo”.

No discurso, Manuel Alegre falou da sua obra, em que poesia, romance e ensaio andam a par, destacando que não vê “a poesia como saudade da prosa”, até porque “aprendeu que cada um de nós tem várias vidas, vários eus, vários outros. Uma espécie de íntima heteronímia”. Ele que foi à guerra e ouviu “o assobio da bala”, frisou que hoje é difícil explicar aos jovens o dilema de ir à guerra.

Manuel Alegre destacou a homenagem proposta pela Professora Doutora Paula Morão da FLUL, “personalidade multifacetada, com determinação intelectual e cívica”, sendo um privilégio, disse, “ser interpretado pela sua consciência crítica. Devo-lhe a sábia argúcia. Os poetas precisam de quem os saiba ler assim”, acrescentou.

O agora Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa contou que às vezes lhe perguntam porque é que, sendo poeta, se envolveu na política. Manuel Alegre respondeu: “por isso mesmo”. Hoje, “num período em que a única certeza é a incerteza”, em que o “populismo é o novo fantasma que ameaça a Europa e o mundo”, é “num tempo assim que, poetas, escritores e filósofos são mais precisos. Espero merecer a honra de continuar a rimar com a minha vida”.

A cerimónia de Doutoramento Honoris Causa de Manuel Alegre contou com um momento musical a cargo de Cristina Branco, que interpretou os fados Trago um Fado, com letra de Manuel Alegre e música de Ricardo J. Dias e Meu Amor Marinheiro, com letra de Manuel Alegre e música de Alain Oulman.

Terminada a Cerimónia, o Cortejo Académico dirigiu-se para o Salão Nobre, ao som do hino Gaudeamus Igitur, de Joan Casulleras.

 

Texto: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)

Fotografia: Ricardo Ascenção e Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)