A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) pareceu pequena na passada sexta-feira, dia 8 de junho, para receber a cerimónia de entrega de prémios das primeiras Olimpíadas da Cultura Clássica, uma iniciativa desenvolvida em parceria pelo Centro de Estudos Clássicos da ULisboa (FLUL), pela Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) e pelas autoras do projeto Olimpvs.net.

A partir do início da tarde, o átrio principal da FLUL foi sendo preenchido por alunos dos ensinos básico e secundário, professores, familiares e outros convidados, vindos de vários pontos do país para aplaudir os participantes e os vencedores da competição organizada no âmbito do projeto Clássicos em Rede. Lançado em 2017 e destinado aos alunos desses níveis de ensino, o projeto tem como objetivo “aumentar os seus conhecimentos sobre a Cultura Clássica e, sobretudo, levá-los a descobrir a sua presença na atualidade”, como refere a página do projeto no website da RBE.

Com três temas à escolha, entre “Ulisses e Penélope”, “Minotauro e o Labirinto” e “Zeus e os Jogos Olímpicos”, as Olimpíadas reuniram 1.800 alunos participantes, de escolas de todo o país. A primeira edição desta competição nacional superou todas as expetativas dos organizadores, quer pelo número de participantes, quer pela qualidade, criatividade e diversidade demonstradas nos inúmeros trabalhos a concurso, como nos confessou a presidente do júri, Professora Doutora Cristina Pimentel, diretora da Área de Literaturas, Artes e Culturas da FLUL, tornando hercúlea a tarefa de decisão dos jurados que selecionaram os premiados.



Na manhã de sexta-feira, na Sala de Actos da FLUL, pudemos espreitar, em antemão, a preparação da exposição que, à tarde, mostraria os trabalhos realizados pelos alunos participantes em resposta ao desafio de Artes/ Multimédia - outro dos desafios do concurso, para além da prova escrita. Entre jogos de tabuleiro, peças escultóricas, trabalhos em madeira, cartolina, vídeos e muitos outros trabalhos a aguardar exposição, a Cultura Clássica despertou o interesse dos estudantes, divididos por três escalões entre o 4.º ano do ensino básico e o 12.º ano do ensino secundário, e incentivou as escolas portuguesas e os seus professores.

Esticar o Fio de Ariadne

Não se circunscrevendo às Olimpíadas da Cultura Clássica, a organização do projeto Clássicos em Rede foi igualmente surpreendida pela forte adesão das Escolas de ensino básico e secundário às sessões de exploração sobre temas de Cultura Clássica. As inscrições para agendamento destas ações, oferecidas no âmbito de outra das linhas de atividade da iniciativa, encerraram após três semanas, superando qualquer previsão. “Uma das palestrantes” revela a Professora Doutora Cristina Pimentel “chegou a uma escola para fazer uma sessão e apareceu um professor de outra escola a pedir que também fosse à sua aula, apesar de não se ter inscrito... E como existia ainda algum tempo livre depois dessa sessão, assim aconteceu”.

Contas feitas às sessões de exploração promovidas em escolas em todo o país, a organização calcula terem sido atingidos cerca de 6.000 alunos, em ações concentradas nas bibliotecas escolares e articuladas com o professor bibliotecário de cada estabelecimento. As sessões tornaram-se possíveis, aliás, devido à disponibilidade de um conjunto alargado de investigadores, professores, autores e de outros classicistas que se envolveram na iniciativa, deslocando-se, ao longo deste ano letivo, a vários locais do país.

“Como é que um aluno sabe se gosta de Cultura Clássica se nunca lhe falaram de Cultura Clássica? Se não se despertar junto dos alunos essa curiosidade...?” A Professora Doutora Cristina Pimentel afirma que a vontade de conhecer a Cultura e as Línguas Clássicas está presente, sem dúvida, nos alunos dos ensinos básico e secundário. A ampla repercussão das iniciativas do projeto Clássicos em Rede em todo o país assim o confirma, e poderá, até, influenciar escolhas de futuros estudantes do ensino superior. “Se forem para uma faculdade de Letras, podem decidir fazer Cultura Clássica, ou estudar os textos fundamentais, ou Latim ou Grego”, refere a Professora da FLUL, especialista em Estudos Clássicos.



Do Labirinto de Creta às peripécias de Ulisses: cada participação, uma história

Os trabalhos dos participantes estiveram em exposição da Sala de Actos da FLUL, local onde dezenas de alunos puderam ver os seus trabalhos expostos e explicar ao público as suas ideias e o processo criativo.

Um desses grupos foi uma turma do 6ª ano do Colégio Salesianos, que integrava três alunas de 11 anos e que viu o seu trabalho “Ulisses e Penélope” premiado. Concha Duarte explicou que o trabalho com o qual concorreram às Olimpíadas da Cultura Clássica “representa uma das peripécias que o Ulisses teve que enfrentar no mar, enquanto a Penélope tece um manto, ou seja, eles estavam em sítios diferentes e nós representámos isso no trabalho”. À FLUL, a colega Leonor Melo apresentou o modelo de criação que seguiram: “isto é uma caixa, em que na tampa escrevemos a história do Ulisses”. Mariana Floro, o terceiro elemento deste grupo de participantes, acentuou que “foi a nossa professora que nos explicou a história e nós fomos investigar: usámos cartolinas, papel vegetal, tintas, uma caixa de cartão e partes de umas bonecas que tínhamos em casa”. As três já têm uma certeza: “queremos participar outra vez para o ano”.

Uma participação futura nas Olimpíadas é o que procura também um grupo de alunas da Escola Básica Rainha Santa Isabel, localizada em Carreira, Leiria. Acompanhadas pela professora de Português Célia Lima, vieram à FLUL receber uma Menção Honrosa no desafio de Artes/ Multimédia. Célia Lima disse à FLUL que “este ano não temos Clube de Cultura Clássica na escola, mas fizemos um texto dramático em que algumas divindades interagem e reproduzimos um cenário do Olimpo, onde os deuses surgem em marionetas de dedo”.

Apesar de a escola que frequentam não ter como opção Grego ou Latim, que a mesma professora considera ser “a matemática das línguas, permitindo desenvolver o raciocínio”, a Cultura Clássica é algo que despertou cada elemento deste grupo de cinco alunas. Maria Estrada, de 13 anos, conta que “este foi um trabalho interessante porque pudemos aprender mais sobre a mitologia grega, e fiquei mesmo curiosa por conhecer mais sobre algumas lendas”. Lara Reis, de 12 anos, lembra o nervosismo inicial “porque achávamos que ia ser difícil, mas depois gostámos do resultado e de conhecer as lendas do desporto”.

Até Viriato veio à entrega dos prémios

Depois de conhecidos os trabalhos, a sessão continuou no Anfiteatro I da FLUL, lotado, onde em palco foi dada continuidade à ópera ligeira “Nos Montes de Viriato”, pelos alunos do Curso Profissional do Artes do Espetáculo da Escola Secundária de D. Pedro V (Lisboa), que tinha começado momentos antes no átrio principal da FLUL. Ao nível musical, quatro alunos do Conservatório Nacional participaram na sessão de entrega dos prémios, interpretando “Quarteto em Sol menor”, op. 27 de Grieg.



Nas palavras de boas-vindas, o Diretor da FLUL, Professor Doutor Miguel Tamen, agradeceu a presença de todos, destacando que esta “é uma iniciativa que tem que continuar, porque a Cultura Clássica está muito inculcada”. Opinião semelhante à transmitida pela Doutora Manuela Pargana Silva, Coordenadora Nacional da Rede de Bibliotecas Escolares, para quem a iniciativa “é a mais clara demonstração de que os clássicos estão sempre presentes e, também por isso, a qualidade dos trabalhos é fantástica”. Pela Associação para o Desenvolvimento da FLUL (ADFLUL), que se associou ao projeto, o seu presidente, Professor Doutor Arnaldo Espírito Santo, saudou a iniciativa, notando que “nas escolas está a nascer um novo ensino, que incita a participar neste tipo de atividades”.

Ao longo de mais de duas horas, individualmente ou em grupo, cada premiado foi chamado ao palco para receber o seu prémio, que incluiu livros, entradas em museus e tablets. Foi ainda entregue pelo Colégio Minerva, a título suplementar, o Prémio Minerva (em memória de António Maduro), que procura promover, junto dos jovens dos ensinos básico e secundário, o conhecimento e o gosto pela Cultura Clássica. Muitos dos trabalhos de Artes/ Multimédia puderam ser apresentados ao público presente na sessão, com os trabalhos a incluírem desde websites, a apresentações em powerpoint ou vídeos sobre a Cultura Clássica.

Ainda com a edição deste ano bem presente, a organização já revelou os temas a concurso para as próximas Olimpíadas da Cultura Clássica: "Perseu e Andrómeda", "Dido e Eneias" e "As Sete Maravilhas do Mundo Antigo".


Texto: Marisa Costa e Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)
Fotografia: FLUL-DRE