Sabia que há 100 anos, sob a presidência de Sidónio Pais, se nomeava uma comissão para escolher terrenos para as futuras novas instalações da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa? No entanto, decorreriam quase 50 anos entre a fundação da Universidade de Lisboa, em 1911, no alvor da república portuguesa, e a efetiva construção e inauguração do novo edifício da FLUL, resultado do inovador projeto arquitetónico de Porfírio Pardal Monteiro, inspirado em modelos estrangeiros das principais universidades europeias, num conjunto que incluía a Reitoria e a Faculdade de Direito. A Città Universitaria de Roma e a Exposition Internationale des Arts et Techniques dans la Vie Moderne (1937) tiveram, neste contexto, um papel determinante, fazendo parte da rota de visitas percorrida por Duarte Pacheco e Porfírio Pardal Monteiro, e inspirando, assim, o projeto da atual Cidade Universitária.

 

Inauguração do novo edifício da Faculdade de Letras, 14 de outubro de 1958. 

 

Da ideia ao projeto

Os primeiros esboços do campus universitário a instalar na zona da Palma de Cima, futura Alameda da Universidade, surgem em 1938 correspondendo a um pedido do Governo datado de 1935, quando Francisco Vieira de Almeida era o então diretor da Faculdade de Letras. Mas o caminho até ao projeto final foi cheio de avanços e recuos, com cinco estudos e anteprojetos apresentados. Os primeiros anteprojetos dos edifícios universitários são dados a conhecer em 1940, e rapidamente se denotam as influências classicistas na estética. Procurava-se a monumentalidade e, ao mesmo tempo, a sobriedade. Ajustes orçamentais, escassez de materiais e o seu encarecimento, bem como o contexto político internacional decorrente da II Guerra Mundial, fazem atrasar a efetivação da encomenda até 1952- que ainda havia de ser reformulada em 1954- sob a orientação do então Ministro das Obras Públicas, o engenheiro José Frederico Ulrich.

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Cidade Universitária. Faculdade de Letras. 1961.
Foto: Artur João Goulart (Arquivo Municipal de Lisboa/ Arquivo Fotográfico)

 

O edifício: a arte em apologia do saber naquela que tem sido a casa de várias gerações de alunos

Em 14 de outubro de 1958, no seio de uma grandiosa e moderna Cidade Universitária, “cidade do saber”*, a Faculdade de Letras era inaugurada com toda a pompa e circunstância, expectáveis em tempo de “Deus, Pátria e Família”. Nessa data, quando Victor Hugo Duarte de Lemos (Faculdade de Ciências) era Reitor da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Letras era a Escola Superior com maior número de alunos: 2.000, face aos 700 registados no início da década. Nos anos seguintes, a FLUL viria a conhecer um aumento assinalável do número de estudantes, o que obrigou a uma adaptação progressiva do espaço físico.

O edifício, que desde o primeiro momento foi pensado para corresponder a uma dimensão arquitetónica e artística, contou com o trabalho do escultor Leopoldo de Almeida, do pintor Lino António e do ceramista Jorge Barradas, sendo as gravuras incisas na fachada da Faculdade, criadas por Almada Negreiros, uma das marcas distintivas da instituição. O elogio da Literatura Portuguesa e Universal está presente em toda a fachada da Faculdade, com figuras e alegorias que remetem para obras de autores como Fernando Pessoa, Luís de Camões, Eça de Queirós, Gil Vicente, Santo Agostinho, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Ésquilo, Homero e Virgílio, entre tantos outros.

No interior da Faculdade, ainda hoje pode ser visto o painel cerâmico de Jorge Barradas, um elogio à sabedoria patente numa mensagem alegórica dirigida aos estudantes, contendo um apelo ao combate à ignorância.

A Comissão Administrativa dos Novos Edifícios Universitários (CANEU) havia de encomendar, também, cinco bustos em bronze para o átrio da FLUL, disponíveis desde a inauguração. Uma homenagem a cinco professores ilustres de Letras: Manuel Oliveira Ramos, Adolfo Coelho, Teófilo Braga, José Leite de Vasconcelos e David Lopes.

O património artístico e arquitetónico abrange, igualmente, a tapeçaria mural criada sob cartão desenhado pelo pintor Manuel Lapa, executada pela Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, remetendo para a fundação do Estudo Geral pelo Rei D. Dinis, uma obra que ocupa uma das paredes do gabinete do Diretor da FLUL desde sempre.

Inicialmente proposta para a frente da Faculdade, virada para a praça da Universidade, a estátua de D. Pedro V, fundador do Curso Superior de Letras em 1859, acabaria por ser instalada no jardim da FLUL em 1960, uma criação do escultor Martins Correia.

Já a Biblioteca, que desde de 1958 funcionou no primeiro piso do edifício, ocupando o espaço entre o atual Centro de Línguas da FLUL e a sala 2.13, seria mais tarde, em conjunto com as bibliotecas departamentais, transferida para as novas instalações, inauguradas em 2000.

Ao longo destes 60 anos foram muitos os antigos alunos de prestígio que se formaram pela Faculdade de Letras e deram vida ao edifício. Alguns dos escritores, filósofos, artistas e políticos mais importantes do século XX (incluindo Cesário Verde, Fernando Pessoa e seis prémios Pessoa) estudaram ou ensinaram aqui (explore a lista).

Património artístico e arquitetónico da Faculdade de Letras.

 

60 anos com os olhos postos no futuro

Passadas mais de seis décadas de um edifício com História e para a História, a FLUL olha hoje para aquele que será o amanhã. Durante o próximo ano espera-se que o processo de adjudicação da construção do edifício que substituirá o velho Pavilhão Novo possa ter início. Este novo edifício terá uma área de salas de aula semelhante ao actual pavilhão e, em dois pisos superiores, cerca de 100 gabinetes de professores.

A construção do novo edifício permitirá iniciar a seguir o restauro do edifício concebido por Pardal Monteiro; tal restauro incluirá a demolição de muitas divisórias e compartimentos que hoje desfiguram o projeto original, bem como a devolução à traça original do espaço esplêndido da antiga biblioteca.

Até lá, embora a uma escala mais modesta, iniciar-se-ão em janeiro de 2019 obras de conservação do primeiro piso do edifício Pardal Monteiro e de expansão da área de armazenamento da Biblioteca. Serão refeitas e reequipadas todas as casas de banho; a área dos serviços académicos será completamente remodelada; nela será também instalada a tesouraria; e serão pintadas todas as paredes e tectos. Em fins de 2019 será a vez das caves, e da zona da direção da FLUL.


Veja também:
Visita virtual ao património artístico da FLUL (de Mariana Vidigal e Maria João Arcanjo (fotografia))
Memória da Universidade de Lisboa (enciclopédia eletrónica do Ensino, Ciência e Cultura na História da Universidade de Lisboa)

 

Fontes: 
*A cidade do saber: o património artístico integrado nos edifícios de Pardal Monteiro para a Cidade Universitária de Lisboa [1934-1961], Ana Mehnert Pascoal; Tinta-da-China. - 1ª ed. - Lisboa: Universidade de Lisboa, 2012;
Património da Universidade de Lisboa. Ciência e Arte, Marta C. Lourenço e Maria João Neto, Tinta-da-China. - 1ª ed. - Lisboa: Universidade de Lisboa, 2011.


Texto: Marisa Costa e Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)
Fotos: Arquivo FLUL- Biblioteca; Arquivo Municipal de Lisboa/ Arquivo Fotográfico, autor: Artur João Goulart