A partir de um desafio lançado a Cleia Detry pelo jornalista de ciência Matt Kaplan, o artigo intitulado “How the mongoose got to Spain. Rikkus-Tikkus-Tavius. Not all the introduced species are unwelcome”,  publicado esta semana pelo periódico “The Economist”, destaca um estudo coordenado pela investigadora especialista em Zooarqueologia (o estudo de restos de animais recuperados em sítios arqueológicos) do Centro de Arqueologia da ULisboa (UNIARQ). O estudo debruça-se sobre a peculiar distribuição do sacarrabos (ou mangusto), um mamífero presente na Península Ibérica desde há alguns milénios e originário do continente africano.

Divulgado no início de outubro de 2018 na revista científica “Science of Nature”, o estudo ("Did the Romans introduce the Egyptian mongoose (Herpestes ichneumon) into the Iberian Peninsula?"), agora em foco no periódico britânico, foi realizado por uma equipa multidisciplinar que inclui também os investigadores da UNIARQ João Luis Cardoso, Macarena Bustamante-Álvarez, Ana Maria Silva e João Pimenta.

 

 

"Rikki-Tikki-Tavi"

”Fiquei surpreendida! Pensei que era apenas uma obsessão minha, mas percebi que não é um interesse assim tão isolado” confessou-nos Cleia Detry a propósito do interesse do jornalista Matt Kaplan pelo tema e pelo, afinal, misterioso sacarrabos peninsular. Não sendo imediatamente óbvias para o leitor, ciente das temáticas usualmente abordadas pelo “The Economist”, a curiosidade da publicação pelo objeto de estudo desta investigadora e a sensibilidade para os temas da conservação e preservação animal poderão adivinhar-se logo no título do artigo, publicado na secção de Ciência e Tecnologia, em particular na alusão à short story integrada em O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, intitulada "Rikki-Tikki-Tavi", história que conta as aventuras de um mangusto. 

Satisfeita pela atenção dedicada pelo periódico a este assunto, para a zooarqueóloga da Faculdade de Letras o valor do artigo do “The Economist” reside também na possibilidade de o seu estudo científico chegar a um público mais alargado, ultrapassando o espaço da academia. “É sempre bom perceber que um artigo que nós pensamos que vai ser lido por poucas pessoas tem, afinal um impacto maior, um interesse maior” afirma, destacando o facto de a notícia ter conseguido traduzir o seu entusiasmo com este objeto de estudo.

Representado em iconografia egípcia diversa e venerado desde a Antiguidade, as origens do sacarrabos- um mamífero carnívoro, diurno, que habita o sudoeste da Península Iberica, e bastante comum em Portugal- têm sido objeto de debate na comunidade científica desde há algum tempo. Considerado em anteriores estudos como tendo sido introduzido na Europa durante o Plistocénico, os dados arqueológicos dos espécimes estudados por Cleia Detry, encontrados em Espanha e em Portugal, apontam para uma introdução mais recente deste animal na Península Ibérica, algures entre a Antiguidade Clássica e a baixa Idade Média. Segundo os achados arqueológicos, no período da ocupação romana terá sido provavelmente mantido como animal de estimação. 

 

Uma das poucas zooarqueólogas portuguesas

Cleia Detry é licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e doutorada em Arqueologia pela Universidade de Salamanca. Actualmente, é Bolseira de Pós-Doutoramento na UNIARQ e tem dedicado a sua investigação ao estudo do melhoramento e domesticação de animais e ao ADN antigo. A Investigadora é também, presentemente, a única zooarqueóloga da Faculdade de Letras.

O interesse pelo seu estudo não se fica, ao que tudo indica, pelo “The Economist”, tendo Cleia Detry sido já contactada por outros órgãos de comunicação social estrangeiros, entre os quais o espanhol “El País”.

 

Texto e fotografia: Marisa Costa (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)

Fontes: “The Economist”"The Science of Nature"UNIARQ.