Todos os anos, o Verão é a altura escolhida por centenas de alunos para virem estudar português. Vêm de todo o mundo e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, através do Curso de Verão de Português Língua Estrangeira (PLE) do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICLP), é o destino escolhido.

Falámos com três alunos para quem aprender a língua de Camões está a ser um desafio bem sucedido. Estão no nível C1 e, a par com a língua, vêem na cultura uma aprendizagem única.

Reportagem e Fotografia: Tiago Artilheiro (FLUL-DRE, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)

 

Oscar Huber vem dos EUA e está no Curso de Verão do ICLP pela segunda vez. Aos 53 anos, este professor de espanhol começou a estudar português “num programa específico para professores de espanhol que quisessem aprender a língua. Era um programa informal, com poucas horas de curso, e como queria aprender mais escolhi este curso em Portugal”.

Pela primeira vez, Oscar deu aulas de nível básico de português nos EUA no ano passado. Gostou da experiência mas rapidamente percebeu “que tinha que continuar a estudar para poder ensinar melhor, até porque considero uma língua de futuro, também devido à dimensão do Brasil”, conta.

Os cursos de Verão do ICLP são mensais, decorrendo entre Julho e Setembro. No curso de Julho há 282 alunos inscritos. China, EUA, França, Canadá e Inglaterra estão no topo das proveniências destes alunos. Ao longo dos 84 anos de existência foram milhares os alunos que quiseram aprender a língua no ICLP.

Helena van der Weyden é um desses casos. Frequenta o curso pela terceira vez. Esta advogada holandesa com 65 anos conhece bem Portugal. Já viveu no Algarve, estudou em Coimbra e no Porto. Mas o primeiro contacto com a língua portuguesa foi no Brasil. “Trabalhei na polícia, mas aqui quero estudar algo diferente: gostava de História de Arte, algo totalmente diferente de Direito”.

Aberta a novas experiências, Helena explica que o “Curso de Verão também é motivante pelos colegas, de vários pontos do mundo. Ajudamo-nos nas dificuldades: eu sei alemão, francês e inglês, mas para as pessoas do norte da Europa português é mais difícil por causa dos verbos, do sotaque, … mas não é impossível”.

Nélia Alexandre, coordenadora de PLE do ICLP, diz que “o Curso de Verão contempla todos os níveis de proficiência (do A1 ao C2), com 20 horas por semana (80 horas no total), atribuindo um certificado de nível e 12 ECTS”. As turmas e as actividades são pensadas para contribuir para a aprendizagem. “As turmas têm entre oito e quinze alunos e, duas tardes por semana, há actividades culturais guiadas em que os estudantes podem participar (algumas gratuitamente, outras pagando uma quantia simbólica)”, diz Nélia Alexandre.

Interesse profissional e relação afectiva com a língua (luso-descendentes de segunda geração) são muitas vezes apresentados pelos alunos como principiais razões para estudo do português. Isso mesmo acontece com a psicóloga Martha Soto, mexicana, 33 anos. “Há oito anos comecei a estudar português na minha universidade. Estudei Línguas e Literaturas Modernas, variante de português, mas depois fui para o Equador e não voltei a estudar a língua. Agora achei que devia voltar a aprender.”

Apesar de algumas semelhanças com o espanhol, Martha considera que “quem não tem como língua materna uma língua parecida com o português fala muito melhor”. Ainda assim, não desiste e conta que gosta muito “de gravar contos em português”, sem esquecer a cultura. “Quando vim a Portugal como turista, gostei muito da história do Zé Povinho, algo que agora estou a conhecer melhor”, sublinha.

Dificuldade na produção oral (conversar) e na gramática são, muitas vezes, referenciados pelos professores que ensinam estes alunos. “Quase todos os aprendentes apontam o conhecimento do modo conjuntivo como um grande desafio, mas nos níveis mais avançados verificamos que isto está relacionado com o facto de o conjuntivo ser usado em estruturas complexas (subordinadas) que exigem a activação de vários tipos de conhecimentos discursivos. Também muito genericamente, a maior facilidade estará no domínio do léxico nuclear para as interacções comunicativas fundamentais e na compreensão da leitura”, explica Nélia Alexandre, coordenadora de PLE do ICLP.

As dificuldades não afastam os alunos. Há mesmo quem faça, no mesmo ano, os três meses do Curso de Verão para poder progredir mais depressa. 

Até Setembro, a Faculdade de Letras vai continuar a receber vários alunos e a fazer das salas de aula um verdadeiro mapa-mundo.