O Centro de Linguística da Universidade de Lisboa acaba de inaugurar na FLUL o núcleo museológico do Laboratório de Fonética da Faculdade, “uma exposição permanente de parte do património e colecção científica do Laboratório”, como refere em entrevista a Professora Sónia Frota, coordenadora científica do núcleo museológico e Directora do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa.

- Que exposição/ núcleo museológico é este? 

Sónia Frota (SF): O núcleo museológico do Laboratório de Fonética da FLUL é uma exposição permanente de parte do património e colecção científica do Laboratório. O núcleo é a face visível de um projecto conjunto de preservação e musealização deste património, que passou pela constituição formal da colecção científica do Laboratório. O projecto envolve, como parceiros do actual Laboratório de Fonética e Fonologia do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, o Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) e o Instituto de História Contemporânea - pólo da Universidade de Évora (IHC). Contamos com a colaboração da Professora Marta Lourenço, Directora do MUHNAC, e das Conservadoras Catarina Teixeira e Laura Moura, do investigador de história da ciência Quintino Lopes (IHC) e de Andreia Marçal, aluna do mestrado da FLUL em História da Arte e Património. O núcleo, que teve a minha coordenação científica, concretiza um projecto antigo com mais de uma década – o de preservar e tornar acessível a todos um património que conta a história do Laboratório e da Fonética em Portugal, no contexto internacional, e que nos mostra como se estudava a dimensão sonora da linguagem desde os inícios do século XX até aos anos 80. Esta história faz-se de instrumentos, do trabalho experimental com eles produzido e das pessoas que o fizeram, com destaque para a Professora Raquel Delgado Martins, que dirigiu o Laboratório de 1971 a 2002.

- Que objectos estão expostos?

SF: O visitante poderá conhecer instrumentos e métodos que tornaram possível o estudo dos sons e gestos que fazemos e percebemos quando comunicamos e ver alguns dos seus produtos científicos. Desde o antigo quimógrafo, de finais do século XIX/inícios do século XX, ao espectrógrafo, instrumento central dos estudos de fonética acústica entre as décadas de 40 e 70, o núcleo mostra-nos como foi possível tornar a fala visível e analisável. Ondas sonoras captadas por microfones, como o Shure da década de 40, registadas em bobines de fita, são analisadas dando origem a representações como o espectrograma, o oscilograma, ou a curva da entoação. A articulação dos sons também marca presença, desde os órgãos nela envolvidos que o modelo anatómico do aparelho fonador, de 1958, nos revela, até ao palatógrafo e ao filme-cineradiográfico, que permitem gerar diagramas de como os sons são produzidos. E porque línguas há onde os sons dão lugar aos gestos, as “Mãos que falam” e o “1ª Dicionário de Língua Gestual Portuguesa” juntam-se ao “Caderno de Fonética do Português”, todos publicações do Laboratório de Fonética da FLUL. Entre as 21 peças expostas (10 em reprodução), encontram-se também exemplares do espólio do Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra (desmantelado a partir de 1972 e encerrado definitivamente em 1979) que fazem parte da colecção histórica do Laboratório de Fonética da FLUL.

- E que objectos ainda estão por inventariar? 

SF: A colecção científica do Laboratório de Fonética de FLUL tem presentemente 51 objectos inventariados (entre os quais está o primeiro computador da FLUL) e pelo menos outros tantos por inventariar, incluindo instrumentos como gravadores, câmaras de filmar, ou o Visi-Pitch destinado ao estudo da entoação, bobines com gravação dos muitos corpora de fala coligidos e estudados no Laboratório, ou uma vasta colecção histórica de discos em que fala e música se articulam.

- Que recuperação está a ser feita de alguns objectos ainda não expostos?

SF: Todas as peças da colecção estão a ser devidamente tratadas (limpas, higienizadas) e inventariadas. Até ao momento, este trabalho tem sido fundamentalmente feito em regime de voluntariado, sendo agora urgente alocar algum financiamento específico para estas actividades, de forma a que os trabalhos possam ser concluídos.

- O que podemos conhecer na exposição virtual que complementa este núcleo museológico?

SF: A exposição virtual é o projecto que se segue, sendo o actual núcleo a porta física de entrada para esse espaço dinâmico em que a história do Laboratório e a história da Fonética irão reviver. Na exposição virtual, para além de pequenas descrições das peças, poderemos ver alguns dos instrumentos em funcionamento e perceber o que eles nos revelaram sobre os sons da fala, ouvir alguns dos registos de fala coligidos no Laboratório, seguir histórias de investigação até à publicação do trabalho científico, ou escutar testemunhos de quem estudou ou estuda a dimensão sonora da linguagem.

- O Laboratório de Fonética da FLUL tem uma história já com muitos anos...

SF: O Laboratório de Fonética da FLUL, enquanto espaço físico e projecto científico-pedagógico, nasce com o novo edifício da FLUL, inaugurado em 1958. Com o novo edifício, a FLUL dispunha de um “laboratório [...] especialmente destinado ao estudo da Fonética” (Brochura do Novo Edifício da FLUL). O Professor Lindley Cintra terá adquirido vários equipamentos para o Laboratório, como o osciloscópio e o espectrógrafo, até ao final da década de 60. Após convite do Professor Cintra, Raquel Delgado Martins torna-se a primeira directora do Laboratório, em 1971, e até 2002, ano da sua aposentação, dirigiu aquele que foi (e ainda é) o único laboratório de fonética em Portugal. O Laboratório de Fonética da FLUL estabeleceu uma valiosa rede de relações internacionais com laboratórios e institutos congéneres em Madrid, Bruxelas, Estrasburgo, Paris, Estocolmo, Holanda e Estados Unidos. Recebeu financiamentos do INIC, da JNICT, da Fundação Fullbright, do governo espanhol e do governo francês, entre outros. Nomes incontornáveis da Fonética formaram, contactaram e foram colaboradores da directora do Laboratório, como Antonio Quilis, Gunnar Fant, Peter Ladefoged, ou Kenneth Stevens. Estiveram na equipa do Laboratório, entre outros, Francisco Lacerda (Univ. Estocolmo), Sozinho Matsinhe (Univ. of South Africa), ou Margarita Drenska (Univ. de Sófia). Entre as muitas colaborações e intercâmbios, para além das instituições universitárias, destacam-se os mantidos com o Centro de Educação e Formação Permanente, a Divisão de Ensino Especial da Direção Geral de Ensino Básico, instâncias judiciárias, o Hospital Santa Maria, ou a Casa Pia. Privilegiando as ligações entre investigação, ensino e sociedade, o Laboratório desenvolveu actividades em áreas diversas, desde a fonética acústica, articulatória e perceptiva, à fonética forense, aquisição da linguagem, variação linguística, ensino e aprendizagem do Português, aprendizagem da leitura e da escrita, educação especial, perturbação da linguagem, surdez, ou língua gestual portuguesa, tendo produzido estudos pioneiros em vários destes domínios.

Entrevista e Fotografia: Tiago Artilheiro (FLUL-DREI, Núcleo de Imagem, Comunicação e Relações Externas)