UNIARQ em destaque internacional: descoberta de crânio humano fóssil com 400 mil anos

“Temos um problema, [disse eu] imitando um pouco a frase do Apollo 13. E o João disse: Não, não. Não é um problema, é um grande problema” revela, à RTP, Joan Daura, investigador da UNIARQ - Centro de Arqueologia da ULisboa, recordando, divertido, as palavras do Professor João Zilhão, professor convidado da FLUL e, igualmente, investigador da UNIARQ, a propósito do momento em que foi descoberto o fóssil divulgado ao mundo, na passada segunda-feira, em artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences USA (PNAS), uma das mais importantes revistas científicas mundiais.


Sob o título A new Middle Pleistocene hominin cranium from Gruta da Aroeira (Portugal), o artigo publicado na Early Edition da PNAS, no dia 13 de março de 2017, anunciou a descoberta, em Portugal, de um crânio humano datado de há 400.000 anos, por uma equipa da UNIARQ. É o mais antigo fóssil humano encontrado, até hoje, em território nacional e as suas características vêem revolucionar a investigação científica. “Quando a equipa avançava em direcção ao objectivo de alcançar o calcário de base para obter uma visão completa da sequência estratigráfica, o crânio foi acidentalmente atingido, criando o buraco circular que nele se observa. Sabendo-se já, através de trabalhos de datação anteriormente realizados, que o depósito em escavação datava de há cerca de 400 000 anos, a importância do achado foi imediatamente reconhecida” descreve a UNIARQ em comunicado à imprensa.

 

Um passo significativo na escrita da história da evolução humana

aroeira 3 restored fossilO achado arqueológico da equipa deste Centro de Investigação foi feito durante trabalhos de escavação na rede de cavidades subterrâneas associada à nascente do Rio Almonda, em Pedrógão, Torres Novas. Designado Aroeira 3, o fóssil foi encontrado no dia 14 de julho de 2014, na gruta da Aroeira, onde anteriormente haviam sido encontrados dois dentes – designados como Aroeira 1 e Aroeira 2 – e vem causar inevitáveis repercussões no estudo da evolução humana, esclarece a UNIARQ.

No contexto da importância do período situado entre 700 e 125 mil anos antes do tempo presente e da escassez de fósseis deste período temporal na Europa, as características do fóssil agora divulgado constituem-no como novo padrão de referência. Quando comparado com outros achados da mesma época, a sua datação bastante mais precisa e a combinação de traços morfológicos que apresenta tornam-no absolutamente singular. As conclusões apresentadas no artigo publicado na revista da Academia Americana das Ciências, assinado pelos 16 autores que compõem a grande equipa internacional envolvida no projeto, indicam “que as populações europeias do Plistocénico Médio eram de uma diversidade morfológica muito grande; e que a evolução humana foi, neste período, um processo bastante mais complexo do que até aqui se pensava.”

 

O “Português mais antigo de Portugal”

clip elmundo O “Português mais antigo de Portugal”, anunciou o Jornal da Noite da RTP, no dia 13 de março (veja o vídeo, acima). Esta é apenas uma entre as inúmeras afirmações entusiásticas que pôde ser lida, ou ouvida, ao longo dos últimos dias nos órgãos de comunicação social, um pouco por todo o mundo. Na Colômbia, lê-se no website da “W Radio”:  “El cráneo de Aroeira, la versión portuguesa del hombre de Atapuerca”- em referência aos fósseis de hominídeos encontrados em Sima de los Huesos (Espanha), a partir dos quais foi possível sequenciar o DNA mitocondrial mais antigo obtido até hoje. No Canadá, o periódico “Le Journal de Montreal” escreve: “Un crâne de 400 000 ans pourrait élucider le mystère des origines de Neandertal”. Na Malásia, o jornal “New Straits Times” aguça a curiosidade dos leitores com o título “400,000 yr-old half-skull points to mystery people”.

pub 14 3 2017 01 origDa Europa, ao continente americano e à Ásia, a magnitude da descoberta veio agitar quer a comunidade científica nacional e internacional, quer os órgãos de comunicação social e as publicações especializadas, como a “National Geographic Espanha”, que destaca, na sua edição online, a combinação única de características morfológicas, ou a “Science”, que refere a importância do achado para compreensão da evolução humana, enquanto elo de ligação entre diferentes fósseis europeus, no contexto dos estudos sobre o homem de Neandertal.

Na recolha de imprensa realizada pela UNIARQ, contabilizam-se, já, cerca de três centenas de artigos publicados e várias reportagens televisivas transmitidas sobre o acontecimento. Aceda a alguns destes artigos, aqui.

 

Uma equipa interdisciplinar e internacional

aroeira 2014 overview with teamDo exigente trabalho de escavação e extracção do achado pelos investigadores (que demorou 12 horas a ser concluído), ao processo de datação da jazida e restauro do crânio, o estudo e publicação do fóssil foi possível através do importante trabalho interdisciplinar desenvolvido pela rede internacional de Centros de Investigação em que a UNIARQ se encontra integrada.

Neste contexto, o Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa refere a particular importância dos contributos do Max-Planck-Institut für evolutionäre Anthropologie “a quem se deve o rigoroso e preciso trabalho de datação da jazida através do método da série do Urânio” e do Centro Universidad Complutense de Madrid-Instituto de Salud Carlos III de Investigación sobre la Evolución y Comportamiento Humanos, autores do “dificílimo trabalho de restauro e preparação do fóssil”.

A UNIARQ destaca, ainda, o grupo de especialistas de renome internacional, aos quais se deve a descrição antropológica do crânio e seu estudo comparativo: Juan Luis Arsuaga (Universidad Complutense de Madrid), Rolf Quam (State University of New York at Binghamton, E.U.A.), Elena Santos (Universidad de Burgos), e Erik Trinkaus (Washington University, St.-Louis, E.U.A.).

 

O trabalho continua

almonda escarpment 2013 dsc 6902 stitch joanPara o complexo arqueológico da rede cársica da nascente do rio Almonda planeiam-se, entretanto, “Mais uma ou duas campanhas na gruta da Aroeira, durante o próximo Verão”, segundo declarações do Professor João Zilhão ao jornal “Público”, faltando, ainda, encontrar o esqueleto respeitante ao crânio descoberto, cujos trabalhos de restauro estarão concluídos no próximo mês de julho.

No contexto do estudo das jazidas arqueológicas do Almonda, o contributo da Câmara Municipal de Torres Novas tem sido determinante, sendo a edilidade a principal financiadora dos trabalhos executados, entre outros apoios de entidades públicas e privadas, imprescindíveis para o desenvolvimento deste projeto.

Reconhecendo-se a importância da divulgação do achado junto do público, em Lisboa, o Museu Nacional de Arqueologia irá exibir o fóssil numa exposição monográfica agendada para outubro deste ano.

 

Texto: Marisa Costa; Fotos: UNIARQ

 

Fontes: UNIARQ; PNASScience; Público; National Geographic España; Le Journal de MontrealNews Straits Times.