por estranho que pareça tenho a certeza absoluta que nasci hoje
Mais do que qualquer outro escritor, António Lobo Antunes será decerto sempre recordado pela sua notável memória de elefante, «as large as life and twice as natural», como se pode ler na epígrafe de Lewis Carroll que ele próprio escolheu para abrir a obra. E isto não acontece apenas porque, à semelhança de qualquer grande autor, uma parte fundamental da sua presença marcante no mundo, na cultura e na literatura das últimas cinco décadas pode ser parcialmente mencionada a partir de vários títulos inesquecíveis – esse de estreia, em 1979, os imediatamente seguintes, como Os Cus de Judas ou Explicação dos Pássaros, alguns menos antigos e mais conviviais, como A Morte de Carlos Gardel, Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura ou Sôbolos Rios que Vão –, mas sobretudo por ser a sua escrita, no panorama da literatura contemporânea, uma das que mais singularmente persistiram na efabulação dos delicados meandros em que se cruzam a memória colectiva e a memória individual, a presença do passado e a passagem do presente, ou a vida pública e a intimidade familiar, em tempos históricos muito pouco lineares para inspirarem qualquer narrativa fácil ou simplificadora. O cruzamento da Medicina com a Guerra, bem como o exercício concomitante da psiquiatria e da literatura terão sido decisivos para a muito assinalada singularidade de um universo ficcional que ainda hoje parece assim escusar-se a qualquer espécie de epigonismo.