
Nascido em Penafiel, em 1934 e irmão do pintor Eurico Gonçalves, Rui Mário Gonçalves interessou-se desde cedo pela arte, apesar de ter começado por estudar Ciências Físico-Químicas na Universidade de Lisboa. Enquanto estudante, realizou exposições didáticas com reproduções, promoveu conferências e colóquios com especialistas e organizou exposições com obras originais, nomeadamente a Primeira Retrospetiva da Pintura Não Figurativa Portuguesa (1958). Em 1963, obteve o Prémio Gulbenkian da Crítica de Arte. No mesmo ano, foi para Paris como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo estudado com Pierre Francastel, Cassou e outros. Em 1967, iniciou a sua carreira como professor no curso de formação artística na Sociedade Nacional de Belas-Artes e ensinou ainda nos anos 70 nas escolas de teatro e de cinema do Conservatório Nacional de Lisboa, num contexto de renovação pedagógica. Era professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no Departamento de Literaturas Românicas, onde entrou em 1974. Participou nos corpos directivos da Sociedade Nacional de Belas-Artes e fundou a secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte, fundamental no reconhecimento da actividade da crítica de arte em Portugal. Manteve intensa actividade como articulista e conferencista sobre arte do século XX. Os seus artigos foram publicados no Jornal de Letras e Artes, A Capital, Expresso, República, Diário de Notícias e Jornal de Letras, Artes e Ideias. Teve dois programas de artes plásticas na RDP Antena 2: As Cores e as Formas (1980-1990) e A Dádiva das Formas (1995-2000).
“A arte é geralmente a primeira reveladora das transformações que a humanidade deseja. Não é a política. A boa política é aquela que serve os verdadeiros anseios da Humanidade, e esses verdadeiros anseios são expressos na melhor arte”, disse Rui Mário Gonçalves numa entrevista à Antena 2 em 1997.
Autor
A obra crítica de Rui Mário Gonçalves procura situar os artistas e os movimentos num contexto histórico, social e político mais vasto, analisando as complexas relações entre a arte e o seu tempo, mostrando como as criações artísticas refletem ou desafiam as circunstâncias em que são produzidas. O seu foco nos artistas modernos e contemporâneos portugueses, como Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas ou Helena Almeida, ajudou a estabelecer o lugar destes no cânone da arte portuguesa. A sua escrita tinha como objectivo não só informar, mas também educar o leitor, explicando conceitos complexos e desmistificando a arte contemporânea, para que um público mais vasto pudesse apreciar e compreender as novas formas de expressão artística. A sua obra A arte portuguesa do século XX é um bom exemplo deste esforço pedagógico.
Biblioteca Breve
A colecção Biblioteca Breve, editada pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICALP), instituição mais tarde integrada no Instituto Camões, tinha como principal objetivo a publicação de ensaios e estudos de alta qualidade sobre uma vasta gama de temas relacionados com a cultura portuguesa. Breves, mas rigorosos, foram escritos por especialistas em diferentes áreas. Os títulos incluem obras sobre a sátira na literatura medieval portuguesa, arquitetura pombalina, mas também o neorrealismo, a história do cinema português e outros temas contemporâneos. Os volumes foram escritos por nomes importantes da cultura e da academia portuguesa, como José-Augusto França, Eugénio Lisboa, Luiz Francisco Rebello e Rui Mário Gonçalves.
Leituras e Influências
No início dos anos 60, Rui Mário Gonçalves foi para Paris como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo estudado com Pierre Francastel (1900-1970). Desde então, os autores e a cultura francesa, nas suas diversas dimensões, exercem uma particular influência na sua obra e pensamento.
Cultura Visual
Tendo vivido uma parte da vida num tempo em que as condições políticas, económicas e sociais não favoreciam o acesso à mais recente bibliografia, nem a cultura visual era tão facilmente acessível, os livros de arte e os catálogos de exposições da doação Rui Mário Gonçalves assumem um particular interesse.
Política
O número 1585 da revista Seara Nova, publicado em Novembro de 1977, foi dedicado ao 60.º Aniversário da Revolução de Outubro. Numa secção intitulada “Artes e Letras”, figuras como Mário Dionísio, Álvaro Salema, Luís Francisco Rebelo, Bernardo Santareno, Artur Ramos e Rui Mário Gonçalves analisam um «acontecimento histórico que viria a exercer as mais significativas repercussões na posterior evolução das sociedades humanas». O texto de Rui Mário Gonçalves intitula-se Apontamentos para uma crítica comparativa, onde escreve: «o artista moderno toma geralmente atitudes políticas progressistas, e quando militante, inscreve-se em partidos de esquerda». Alguns dos títulos da sua biblioteca sugerem igualmente a sua aliança com a esquerda partidária.
Crítica
No final da década de 60, Rui Mário Gonçalves dirigiu a Galeria de Arte da Livraria Buchholz, onde organizou inúmeras exposições e conferências. Este núcleo, com as folhas de sala dessas e de outras exposições, correspondência e materiais preparatórios para os programas radiofónicos da Antena 2, ilustram a presença, a curiosidade e a admiração pelos artistas no âmago da sua actividade como crítico, professor, programador e divulgador.