Projectos de Investigação

Área de Ciências da Linguagem

 

Financiamento Nacional

COr-DD - Corpus Oral dos Crioulos Indo-Portugueses de Damão e Diu

Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia  

Referência: 2023.14029.PEX

Papel da FLUL: Instituição Proponente

Unidade de Investigação: Centro de Linguística da Universidade de Lisboa

Investigador Responsável: Hugo Canelas Cardoso

Duração: 18 meses + 2 meses (01/02/2025 a 30/09/2026)

Financiamento: 43 742,66€

Resumo: Este projeto produzirá o COr-DD, um corpus anotado e inteiramente acessível de fala em duas línguas relacionadas e altamente ameaçadas da Índia: os Crioulos Indo-Portugueses de Damão e de Diu. O Indo-Português de Damão (IPDa) e o Indo-Português de Diu (IPDi) são variedades dos crioulos de base lexical portuguesa da Ásia Meridional (tradicionalmente conhecidos como "crioulos indo-portugueses") e desenvolveram-se nas regiões de língua Gujarate em resultado do controlo colonial português, que se estendeu de meados do séc. XVI até 1961. Apesar de os dois territórios serem geograficamente distintos (separados pelo Golfo de Cambaia), a sua história comum enquanto ex-colónias portuguesas e os frequentes contactos entre as respetivas populações produziram dois crioulos bastante semelhantes, ainda que não inteiramente equivalentes - e o facto de este projeto englobar ambas as línguas permitir-nos-á determinar com mais certeza empírica a amplitude das suas semelhanças e diferenças linguísticas. O corpus de IPDa e IPDi conterá registos multimédia (áudio e/ou vídeo, consoante o adequado) representando diferentes contextos comunicativos e o maior número possível de falantes, acompanhados pela sua transcrição, anotação morfossintática e tradução. Conjugará diversos componentes: a) materiais de legado, recolhidos no campo pelo IR (em Diu, entre 2005 e 2008) e pelo Consultor (em Damão, a partir de 1995); b) novas gravações e entrevistas, que serão recolhidas no campo em Damão e Diu; c) novas gravações e entrevistas, que serão recolhidas entre as diásporas damanense e diuense em dois dos seus destinos de emigração mais frequentes: Portugal (esp. Lisboa) e o Reino Unido (esp. Leicester, Peterborough e Londres); e será disponibilizado online como parte da considerável coleção de recursos linguísticos produzidos pela unidade de investigação de acolhimento (Centro de Linguística da Universidade de Lisboa), a qual já contém corpora para outros crioulos de base lexical portuguesa ao redor do mundo.

 

COVIDGen_Lang - Dar Voz à Geração COVID: Avaliação do Desenvolvimento da Linguagem e Risco de Alterações

Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia  

Referência: 2024.14608.PEX

Papel da FLUL: Instituição Proponente

Unidade de Investigação: Centro de Linguística da Universidade de Lisboa

Investigador Responsável: Marisa Gomes Filipe

Instituições de Colaboração: Centro de Investigação em Psicologia para o Desenvolvimento

Duração: 18 meses (01/02/2026 a 31/07/2027)

Financiamento: 59 827,06€

Resumo: As crianças nascidas durante a pandemia de COVID-19 (crianças NDC) estão atualmente em idade pré-escolar, tendo crescido num contexto de restrições sociais e educativas sem precedentes, bem como de redução do input linguístico durante anos críticos do seu desenvolvimento. As consequências a médio e longo prazo destes fatores na aquisição da linguagem permanecem pouco estudadas, tornando urgente a investigação nesta área. Este projeto responde a esta lacuna, caracterizando sistematicamente o desenvolvimento linguístico de crianças NDC em idade pré escolar e desenvolvendo uma calculadora de risco multivariável, de acesso aberto e baseada em evidência, para estimar o risco individual de perturbações da linguagem.

Portugal, um dos países da União Europeia que implementou medidas mais rigorosas durante a pandemia, oferece um contexto ideal para avaliar o impacto destas restrições no desenvolvimento infantil. Investigação prévia da nossa equipa já revelou alterações significativas no desenvolvimento de crianças NDC, reforçando a necessidade urgente deste estudo. Através da utilização de modelos estatísticos avançados e da colaboração interdisciplinar, este projeto identificará os principais preditores de dificuldades linguísticas e traduzirá os resultados numa ferramenta prática que permitirá a sua identificação precoce e intervenções mais eficazes.

Ao longo de 18 meses, o projeto seguirá uma abordagem estruturada em quatro fases:

  • Fase 1: Será realizada uma revisão sistemática da literatura para sintetizar os dados quantitativos disponíveis e estabelecer um panorama abrangente do impacto da pandemia no desenvolvimento da linguagem em crianças. Estes resultados irão diretamente informar o desenho dos questionários parentais utilizados na fase seguinte, assegurando que o estudo se concentra nos fatores ambientais e sociais mais relevantes.
  • Fase 2: Esta fase inclui um estudo longitudinal com duas coortes de crianças NDC com desenvolvimento típico (4 e 5 anos, expostas a um e dois anos de pandemia, respetivamente; n=400). Os dados serão recolhidos em dois momentos, com um ano de intervalo. Os cuidadores irão preencher questionários baseados nas conclusões relevantes da revisão da literatura realizada previamente. As crianças serão submetidas a avaliações padronizadas de linguagem para avaliar as suas competências linguísticas. A análise dos dados recorrerá a Modelos de Equações Estruturais para identificar os efeitos diretos e indiretos das restrições pandémicas no desenvolvimento da linguagem.
  • Fase 3: Com base nos resultados da Fase 2, será desenvolvido um modelo preditivo, identificando os principais fatores de risco associados a alterações de linguagem, incluindo variáveis sociodemográficas, ambientais e de desenvolvimento. Será utilizada a regressão logística para desenvolver um modelo que estime a probabilidade de dificuldades de linguagem, categorizando os resultados em baixo, médio e alto risco. A validação cruzada garantirá a robustez do modelo, utilizando medidas de sensibilidade e especificidade e o modelo será ajustado com base na análise dos dados.
  • Fase 4: O modelo desenvolvido na Fase 3 será utilizado para criar a calculadora Risk4LI, implementada como um formulário interativo online gratuito, acessível a todos os interessados. Esta ferramenta permitirá a avaliação personalizada e em tempo real dos fatores de risco individuais de cada criança, facilitando encaminhamentos para avaliações mais abrangentes e intervenções precoces antes que as dificuldades de linguagem se agravem. Ao disponibilizar uma plataforma gratuita e intuitiva, este projeto estabelece uma ponte entre a investigação científica e a prática, proporcionando uma solução com aplicabilidade para além do âmbito deste estudo.

Este projeto é simultaneamente oportuno e essencial. O desenvolvimento da linguagem é fundamental para o sucesso académico e para a integração social, sendo as crianças NDC um grupo em risco de dificuldades a longo prazo. A abordagem interdisciplinar do estudo, que integra conhecimentos em linguística, psicologia, educação, prática clínica, terapia da fala e informática, assegura uma análise abrangente dos trajetos de desenvolvimento, ao mesmo tempo que fornece soluções concretas para a avaliação da linguagem. Os resultados terão impactos tanto na investigação científica como no desenvolvimento de políticas educacionais e clínicas.

Para além do impacto imediato, este projeto abre caminho a avanços futuros no rastreio de alterações da linguagem. A calculadora Risk4LI poderá ser adaptada a outras populações e melhorada com técnicas de aprendizagem automática para aumentar a precisão preditiva. Estas possíveis aplicações posicionam o Risk4LI como uma ferramenta inovadora no campo da investigação, educação e da prática clínica, ajudando a identificar e apoiar crianças em risco de alterações de linguagem, garantindo, em última instância, melhores resultados para as crianças NDC e para as futuras gerações.

 

ORIZON - Ortografia e identidade em caboverdiano

Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia  

Referência: 2024.13731.PEX

Papel da FLUL: Instituição Proponente

Unidade de Investigação: Centro de Linguística da Universidade de Lisboa

Investigador Responsável: Fernanda Maria Cavaleiro Pratas

Instituições de Colaboração: Universidade de Cabo Verde

Duração: 18 meses (01/02/2026 a 31/07/2027)

Financiamento: 59 403,55€

Resumo: Este projeto de investigação pretende explorar as interseções entre variação linguística, representação ortográfica e identidade em Cabo Verde, através de uma abordagem interdisciplinar que combina descrições linguísticas detalhadas com uma perspetiva sociolinguística.

O panorama linguístico de Cabo Verde caracteriza-se pela coexistência de diversas variedades do Caboverdiano (Kriol(u)), língua da África Ocidental relacionada com o Português, falada por todos no arquipélago mas ainda não oficial. Estas variedades têm sido agrupadas em duas áreas geográficas correspondentes aos principais grupos de ilhas: Sotavento (a sul) e Barlavento (a norte). Esta divisão é profundamente sentida por muitos falantes, tanto em Cabo Verde como na diáspora, e continua a influenciar as discussões sobre identidade linguística (Batalha 2004; Rego 2008; Baptista et al. 2010, entre outros).

Sabe-se que a diversidade linguística deve ser valorizada numa sociedade progressista e inclusiva (UNESCO 2025). No entanto, para que esta variação interna possa ser plenamente aproveitada, o Caboverdiano deve ser integrado nos domínios formais, em especial na educação, através do desenvolvimento de dicionários, manuais escolares e outros recursos – o que requer uma ortografia padronizada. Esta necessidade conduz à questão central desta investigação: como é que a forte ligação identitária às variedades linguísticas internas influencia a adoção de um sistema ortográfico comum?

Diferentes estudos apontam para casos de resistência de certas comunidades a propostas ortográficas que não representam as suas particularidades linguísticas. Em Sebba (2007) encontramos uma reflexão envolvendo as dimensões sociais, culturais e políticas da ortografia, desafiando a visão de que se trata de uma mera ferramenta linguística. Os sistemas ortográficos não são neutros; pelo contrário, são moldados por forças históricas, ideológicas e sociais que refletem relações de poder, disputas identitárias e transformações culturais. Não surpreende, portanto, que diferentes grupos desejem que a sua própria fala passe a ter um estatuto oficial, sendo possível identificar exemplos destas tensões por todo o mundo.

A equipa vai assim examinar a relação estreita entre padronização linguística e identidade, baseando-se ainda em estudos recentes noutros contextos multilíngues (e.g., Bissoonauth et al. no prelo; Lüpke 2018; Ardoino 2024, entre outros). Pretende-se analisar como as variedades do Caboverdiano são percebidas e de que forma esta perceção influencia as atitudes dos falantes quanto a um sistema ortográfico unificado. Na prática, serão dados dois passos pioneiros: (i) assegurada a representação escrita da variação fonológica, morfossintática e lexical de todas as ilhas, considerando ainda (ii) o discurso metalinguístico que sustenta a atual controvérsia sobre a padronização.

O projeto adota uma metodologia mista, integrando entrevistas qualitativas (algumas das quais já conduzidas pela equipa de investigação), observações etnográficas feitas por outros autores, análise do discurso produzido em artigos de imprensa e nas redes sociais, e dados quantitativos (questionários). Além disso, uma breve análise de documentos históricos permitirá contextualizar estes conteúdos no quadro da trajetória de Cabo Verde, explorando aspetos de continuidade e de rutura no que respeita o ideologia linguística.

Um dos nossos principais trunfos é a participação de três membros locais na equipa, além de dois consultores também locais, garantindo que a investigação permanece ancorada na comunidade. Através do envolvimento com falantes, especialistas em educação (também o caso do terceiro consultor), decisores políticos e linguistas, o projeto visa identificar desafios e oportunidades para um modelo ortográfico inclusivo. O principal resultado pretendido é uma versão refinada e consensual de uma ortografia comum, de acordo com a abordagem defendida em Lopes (2011) e Reis (2011).

Ao explorar a interação entre diversidade linguística e identidade, teremos uma compreensão profunda de como a língua pode ser um fator unificador e divisivo na construção de uma identidade nacional. Os resultados irão contribuir para políticas linguísticas mais inclusivas e sensíveis, quer em Cabo Verde quer noutros contextos semelhantes: pela partilha de resultados em conferências internacionais (tais como encontros académicos africanos), a equipa irá participar no debate contemporâneo sobre padronização linguística, representação cultural e autonomia política em contextos pós-coloniais.

Como efeito colateral positivo desta iniciativa – também pelas novas entrevistas com falantes de variedades menos documentadas – o corpus digital LUDViC (Pratas 2020) será expandido e o seu sistema de anotação será significativamente aperfeiçoado, permitindo análises teóricas mais detalhadas no futuro próximo. Este desenvolvimento está em plena consonância com os objetivos de investigação atualmente prosseguidos pela Investigadora Principal.

 

NWRChildren - Repetição de pseudopalavras em crianças com desenvolvimento típico e atípico da linguagem

Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia  

Referência: 2023.12648.PEX

Papel da FLUL: Instituição Proponente

Unidade de Investigação: Centro de Linguística da Universidade de Lisboa

Investigador Responsável: Letícia Barros de Almeida

Instituições de Colaboração: Instituto Politécnico de Setúbal - Escola Superior de Saúde de Setúbal; Universidade da Madeira - Faculdade de Artes e Humanidades; Université de Tours - UFR Lettres et Langues

Duração: 18 meses (01/02/2025 a 31/07/2026)

Financiamento: 49 930,20€

Resumo: Este projeto tem como principal objetivo validar o teste de repetição de pseudopalavras LITMUS-QU-NWR (Language Impairment Testing in a Multilingual Society - Quasi Universal - NonWord Repetition) para o Português Europeu (PE).

O teste foi criado no âmbito de uma ação COST (European Cooperation in Science and Technology) subordinada ao tema Bilinguismo e Perturbações da Linguagem (COST Action IS0804, 2009-2013). No âmbito dessa ação, foram concebidos instrumentos de avaliação que permitissem discriminar crianças monolingues e bilingues com desenvolvimento típico e crianças monolingues e bilingues com perturbação do desenvolvimento da linguagem (PDL) nos domínios da sintaxe, do léxico e da fonologia. Os testes LITMUS-QU-NWR foram concebidos para avaliar a fonologia infantil, através de variáveis que controlam a complexidade fonológica dos itens. Em PE, os testes de Repetição de Pseudopalavras (RPP) não avaliam complexidade fonológica nem foram desenhados para aplicação em contexto multilingue, daí a pertinência de adaptar o LITMUS-QU-NWR ao PE. O projeto pretende ainda explorar a relação entre o desempenho das crianças no teste e o desempenho noutras tarefas que envolvem produção e compreensão oral assim como a leitura e escrita.

Tradicionalmente, a fonologia infantil é avaliada através de testes estandardizados que solicitam a produção de palavras, em tarefas de nomeação de imagens. Estas tarefas têm a desvantagem de serem baseadas no conhecimento lexical prévio, colocando em desvantagem crianças com léxico mais reduzido, dado que o conhecimento lexical está correlacionado com o desempenho das crianças em tarefas de nomeação ou repetição de palavras. Este projeto visa colmatar esta lacuna através do uso de um teste de RPP que não recorre a conhecimento lexical previamente adquirido. Este fator torna o teste relevante para avaliar crianças que possam ter um inventário lexical reduzido, como é o caso das crianças com PDL e das crianças bilingues. Em suma, o teste tem o potencial de identificar crianças com PDL, quer sejam monolingues ou bilingues.

Embora o LITMUS-QU-NWR tenha sido adaptado para várias línguas (francês, alemão e árabe libanês) e a sua eficácia em distinguir crianças com desenvolvimento típico de crianças com PDL tenha sido demonstrada, ainda não foi investigada a relação do desempenho obtido no teste com outras competências linguísticas, nomeadamente o tamanho do vocabulário recetivo, as capacidades metafonológicas e as habilidades de leitura e escrita. Tal é surpreendente, considerando que este conhecimento nos permitirá perceber que capacidades podem ser treinadas a fim de melhorar o desempenho da criança, tanto na comunicação oral como no processo de aprendizagem da leitura e da escrita. A nossa proposta, assim, visa colmatar esta lacuna no conhecimento sobre a interação entre diferentes competências linguísticas em crianças no 1º Ciclo do Ensino Básico. Abordaremos este aspeto, investigando relações entre capacidades metafonológicas, habilidades de leitura e escrita e conhecimento fonológico de crianças em idade escolar, com e sem PDL. Para o efeito, conduziremos uma avaliação experimental destas várias capacidades. A nossa amostra será constituída por 200 crianças monolingues falantes nativas do PE a frequentar o 1º Ciclo do Ensino Básico, assim como por 40 crianças monolingues com PDL. O teste de RPP contém 72 pseudopalavras que as crianças terão de repetir. Paralelamente, serão usados testes de avaliação do vocabulário recetivo, de capacidades metafonológicas e de habilidades de leitura e escrita.

 

Financiamento Internacional