- Área de Ciências da Linguagem
- Área de Filosofia
- Área de História
- Área de Literaturas, Artes e Culturas
Área de Ciências da Linguagem
Financiamento Nacional
COr-DD - Corpus Oral dos Crioulos Indo-Portugueses de Damão e Diu
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.14029.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Linguística da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Hugo Canelas Cardoso
Duração: 18 meses + 2 meses (01/02/2025 a 30/09/2026)
Financiamento: 43 742,66€
Resumo: Este projeto produzirá o COr-DD, um corpus anotado e inteiramente acessível de fala em duas línguas relacionadas e altamente ameaçadas da Índia: os Crioulos Indo-Portugueses de Damão e de Diu. O Indo-Português de Damão (IPDa) e o Indo-Português de Diu (IPDi) são variedades dos crioulos de base lexical portuguesa da Ásia Meridional (tradicionalmente conhecidos como "crioulos indo-portugueses") e desenvolveram-se nas regiões de língua Gujarate em resultado do controlo colonial português, que se estendeu de meados do séc. XVI até 1961. Apesar de os dois territórios serem geograficamente distintos (separados pelo Golfo de Cambaia), a sua história comum enquanto ex-colónias portuguesas e os frequentes contactos entre as respetivas populações produziram dois crioulos bastante semelhantes, ainda que não inteiramente equivalentes - e o facto de este projeto englobar ambas as línguas permitir-nos-á determinar com mais certeza empírica a amplitude das suas semelhanças e diferenças linguísticas. O corpus de IPDa e IPDi conterá registos multimédia (áudio e/ou vídeo, consoante o adequado) representando diferentes contextos comunicativos e o maior número possível de falantes, acompanhados pela sua transcrição, anotação morfossintática e tradução. Conjugará diversos componentes: a) materiais de legado, recolhidos no campo pelo IR (em Diu, entre 2005 e 2008) e pelo Consultor (em Damão, a partir de 1995); b) novas gravações e entrevistas, que serão recolhidas no campo em Damão e Diu; c) novas gravações e entrevistas, que serão recolhidas entre as diásporas damanense e diuense em dois dos seus destinos de emigração mais frequentes: Portugal (esp. Lisboa) e o Reino Unido (esp. Leicester, Peterborough e Londres); e será disponibilizado online como parte da considerável coleção de recursos linguísticos produzidos pela unidade de investigação de acolhimento (Centro de Linguística da Universidade de Lisboa), a qual já contém corpora para outros crioulos de base lexical portuguesa ao redor do mundo.
COVIDGen_Lang - Dar Voz à Geração COVID: Avaliação do Desenvolvimento da Linguagem e Risco de Alterações
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2024.14608.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Linguística da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Marisa Gomes Filipe
Instituições de Colaboração: Centro de Investigação em Psicologia para o Desenvolvimento
Duração: 18 meses (01/02/2026 a 31/07/2027)
Financiamento: 59 827,06€
Resumo: As crianças nascidas durante a pandemia de COVID-19 (crianças NDC) estão atualmente em idade pré-escolar, tendo crescido num contexto de restrições sociais e educativas sem precedentes, bem como de redução do input linguístico durante anos críticos do seu desenvolvimento. As consequências a médio e longo prazo destes fatores na aquisição da linguagem permanecem pouco estudadas, tornando urgente a investigação nesta área. Este projeto responde a esta lacuna, caracterizando sistematicamente o desenvolvimento linguístico de crianças NDC em idade pré escolar e desenvolvendo uma calculadora de risco multivariável, de acesso aberto e baseada em evidência, para estimar o risco individual de perturbações da linguagem.
Portugal, um dos países da União Europeia que implementou medidas mais rigorosas durante a pandemia, oferece um contexto ideal para avaliar o impacto destas restrições no desenvolvimento infantil. Investigação prévia da nossa equipa já revelou alterações significativas no desenvolvimento de crianças NDC, reforçando a necessidade urgente deste estudo. Através da utilização de modelos estatísticos avançados e da colaboração interdisciplinar, este projeto identificará os principais preditores de dificuldades linguísticas e traduzirá os resultados numa ferramenta prática que permitirá a sua identificação precoce e intervenções mais eficazes.
Ao longo de 18 meses, o projeto seguirá uma abordagem estruturada em quatro fases:
- Fase 1: Será realizada uma revisão sistemática da literatura para sintetizar os dados quantitativos disponíveis e estabelecer um panorama abrangente do impacto da pandemia no desenvolvimento da linguagem em crianças. Estes resultados irão diretamente informar o desenho dos questionários parentais utilizados na fase seguinte, assegurando que o estudo se concentra nos fatores ambientais e sociais mais relevantes.
- Fase 2: Esta fase inclui um estudo longitudinal com duas coortes de crianças NDC com desenvolvimento típico (4 e 5 anos, expostas a um e dois anos de pandemia, respetivamente; n=400). Os dados serão recolhidos em dois momentos, com um ano de intervalo. Os cuidadores irão preencher questionários baseados nas conclusões relevantes da revisão da literatura realizada previamente. As crianças serão submetidas a avaliações padronizadas de linguagem para avaliar as suas competências linguísticas. A análise dos dados recorrerá a Modelos de Equações Estruturais para identificar os efeitos diretos e indiretos das restrições pandémicas no desenvolvimento da linguagem.
- Fase 3: Com base nos resultados da Fase 2, será desenvolvido um modelo preditivo, identificando os principais fatores de risco associados a alterações de linguagem, incluindo variáveis sociodemográficas, ambientais e de desenvolvimento. Será utilizada a regressão logística para desenvolver um modelo que estime a probabilidade de dificuldades de linguagem, categorizando os resultados em baixo, médio e alto risco. A validação cruzada garantirá a robustez do modelo, utilizando medidas de sensibilidade e especificidade e o modelo será ajustado com base na análise dos dados.
- Fase 4: O modelo desenvolvido na Fase 3 será utilizado para criar a calculadora Risk4LI, implementada como um formulário interativo online gratuito, acessível a todos os interessados. Esta ferramenta permitirá a avaliação personalizada e em tempo real dos fatores de risco individuais de cada criança, facilitando encaminhamentos para avaliações mais abrangentes e intervenções precoces antes que as dificuldades de linguagem se agravem. Ao disponibilizar uma plataforma gratuita e intuitiva, este projeto estabelece uma ponte entre a investigação científica e a prática, proporcionando uma solução com aplicabilidade para além do âmbito deste estudo.
Este projeto é simultaneamente oportuno e essencial. O desenvolvimento da linguagem é fundamental para o sucesso académico e para a integração social, sendo as crianças NDC um grupo em risco de dificuldades a longo prazo. A abordagem interdisciplinar do estudo, que integra conhecimentos em linguística, psicologia, educação, prática clínica, terapia da fala e informática, assegura uma análise abrangente dos trajetos de desenvolvimento, ao mesmo tempo que fornece soluções concretas para a avaliação da linguagem. Os resultados terão impactos tanto na investigação científica como no desenvolvimento de políticas educacionais e clínicas.
Para além do impacto imediato, este projeto abre caminho a avanços futuros no rastreio de alterações da linguagem. A calculadora Risk4LI poderá ser adaptada a outras populações e melhorada com técnicas de aprendizagem automática para aumentar a precisão preditiva. Estas possíveis aplicações posicionam o Risk4LI como uma ferramenta inovadora no campo da investigação, educação e da prática clínica, ajudando a identificar e apoiar crianças em risco de alterações de linguagem, garantindo, em última instância, melhores resultados para as crianças NDC e para as futuras gerações.
ORIZON - Ortografia e identidade em caboverdiano
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2024.13731.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Linguística da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Fernanda Maria Cavaleiro Pratas
Instituições de Colaboração: Universidade de Cabo Verde
Duração: 18 meses (01/02/2026 a 31/07/2027)
Financiamento: 59 403,55€
Resumo: Este projeto de investigação pretende explorar as interseções entre variação linguística, representação ortográfica e identidade em Cabo Verde, através de uma abordagem interdisciplinar que combina descrições linguísticas detalhadas com uma perspetiva sociolinguística.
O panorama linguístico de Cabo Verde caracteriza-se pela coexistência de diversas variedades do Caboverdiano (Kriol(u)), língua da África Ocidental relacionada com o Português, falada por todos no arquipélago mas ainda não oficial. Estas variedades têm sido agrupadas em duas áreas geográficas correspondentes aos principais grupos de ilhas: Sotavento (a sul) e Barlavento (a norte). Esta divisão é profundamente sentida por muitos falantes, tanto em Cabo Verde como na diáspora, e continua a influenciar as discussões sobre identidade linguística (Batalha 2004; Rego 2008; Baptista et al. 2010, entre outros).
Sabe-se que a diversidade linguística deve ser valorizada numa sociedade progressista e inclusiva (UNESCO 2025). No entanto, para que esta variação interna possa ser plenamente aproveitada, o Caboverdiano deve ser integrado nos domínios formais, em especial na educação, através do desenvolvimento de dicionários, manuais escolares e outros recursos – o que requer uma ortografia padronizada. Esta necessidade conduz à questão central desta investigação: como é que a forte ligação identitária às variedades linguísticas internas influencia a adoção de um sistema ortográfico comum?
Diferentes estudos apontam para casos de resistência de certas comunidades a propostas ortográficas que não representam as suas particularidades linguísticas. Em Sebba (2007) encontramos uma reflexão envolvendo as dimensões sociais, culturais e políticas da ortografia, desafiando a visão de que se trata de uma mera ferramenta linguística. Os sistemas ortográficos não são neutros; pelo contrário, são moldados por forças históricas, ideológicas e sociais que refletem relações de poder, disputas identitárias e transformações culturais. Não surpreende, portanto, que diferentes grupos desejem que a sua própria fala passe a ter um estatuto oficial, sendo possível identificar exemplos destas tensões por todo o mundo.
A equipa vai assim examinar a relação estreita entre padronização linguística e identidade, baseando-se ainda em estudos recentes noutros contextos multilíngues (e.g., Bissoonauth et al. no prelo; Lüpke 2018; Ardoino 2024, entre outros). Pretende-se analisar como as variedades do Caboverdiano são percebidas e de que forma esta perceção influencia as atitudes dos falantes quanto a um sistema ortográfico unificado. Na prática, serão dados dois passos pioneiros: (i) assegurada a representação escrita da variação fonológica, morfossintática e lexical de todas as ilhas, considerando ainda (ii) o discurso metalinguístico que sustenta a atual controvérsia sobre a padronização.
O projeto adota uma metodologia mista, integrando entrevistas qualitativas (algumas das quais já conduzidas pela equipa de investigação), observações etnográficas feitas por outros autores, análise do discurso produzido em artigos de imprensa e nas redes sociais, e dados quantitativos (questionários). Além disso, uma breve análise de documentos históricos permitirá contextualizar estes conteúdos no quadro da trajetória de Cabo Verde, explorando aspetos de continuidade e de rutura no que respeita o ideologia linguística.
Um dos nossos principais trunfos é a participação de três membros locais na equipa, além de dois consultores também locais, garantindo que a investigação permanece ancorada na comunidade. Através do envolvimento com falantes, especialistas em educação (também o caso do terceiro consultor), decisores políticos e linguistas, o projeto visa identificar desafios e oportunidades para um modelo ortográfico inclusivo. O principal resultado pretendido é uma versão refinada e consensual de uma ortografia comum, de acordo com a abordagem defendida em Lopes (2011) e Reis (2011).
Ao explorar a interação entre diversidade linguística e identidade, teremos uma compreensão profunda de como a língua pode ser um fator unificador e divisivo na construção de uma identidade nacional. Os resultados irão contribuir para políticas linguísticas mais inclusivas e sensíveis, quer em Cabo Verde quer noutros contextos semelhantes: pela partilha de resultados em conferências internacionais (tais como encontros académicos africanos), a equipa irá participar no debate contemporâneo sobre padronização linguística, representação cultural e autonomia política em contextos pós-coloniais.
Como efeito colateral positivo desta iniciativa – também pelas novas entrevistas com falantes de variedades menos documentadas – o corpus digital LUDViC (Pratas 2020) será expandido e o seu sistema de anotação será significativamente aperfeiçoado, permitindo análises teóricas mais detalhadas no futuro próximo. Este desenvolvimento está em plena consonância com os objetivos de investigação atualmente prosseguidos pela Investigadora Principal.
NWRChildren - Repetição de pseudopalavras em crianças com desenvolvimento típico e atípico da linguagem
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.12648.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Linguística da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Letícia Barros de Almeida
Instituições de Colaboração: Instituto Politécnico de Setúbal - Escola Superior de Saúde de Setúbal; Universidade da Madeira - Faculdade de Artes e Humanidades; Université de Tours - UFR Lettres et Langues
Duração: 18 meses (01/02/2025 a 31/07/2026)
Financiamento: 49 930,20€
Resumo: Este projeto tem como principal objetivo validar o teste de repetição de pseudopalavras LITMUS-QU-NWR (Language Impairment Testing in a Multilingual Society - Quasi Universal - NonWord Repetition) para o Português Europeu (PE).
O teste foi criado no âmbito de uma ação COST (European Cooperation in Science and Technology) subordinada ao tema Bilinguismo e Perturbações da Linguagem (COST Action IS0804, 2009-2013). No âmbito dessa ação, foram concebidos instrumentos de avaliação que permitissem discriminar crianças monolingues e bilingues com desenvolvimento típico e crianças monolingues e bilingues com perturbação do desenvolvimento da linguagem (PDL) nos domínios da sintaxe, do léxico e da fonologia. Os testes LITMUS-QU-NWR foram concebidos para avaliar a fonologia infantil, através de variáveis que controlam a complexidade fonológica dos itens. Em PE, os testes de Repetição de Pseudopalavras (RPP) não avaliam complexidade fonológica nem foram desenhados para aplicação em contexto multilingue, daí a pertinência de adaptar o LITMUS-QU-NWR ao PE. O projeto pretende ainda explorar a relação entre o desempenho das crianças no teste e o desempenho noutras tarefas que envolvem produção e compreensão oral assim como a leitura e escrita.
Tradicionalmente, a fonologia infantil é avaliada através de testes estandardizados que solicitam a produção de palavras, em tarefas de nomeação de imagens. Estas tarefas têm a desvantagem de serem baseadas no conhecimento lexical prévio, colocando em desvantagem crianças com léxico mais reduzido, dado que o conhecimento lexical está correlacionado com o desempenho das crianças em tarefas de nomeação ou repetição de palavras. Este projeto visa colmatar esta lacuna através do uso de um teste de RPP que não recorre a conhecimento lexical previamente adquirido. Este fator torna o teste relevante para avaliar crianças que possam ter um inventário lexical reduzido, como é o caso das crianças com PDL e das crianças bilingues. Em suma, o teste tem o potencial de identificar crianças com PDL, quer sejam monolingues ou bilingues.
Embora o LITMUS-QU-NWR tenha sido adaptado para várias línguas (francês, alemão e árabe libanês) e a sua eficácia em distinguir crianças com desenvolvimento típico de crianças com PDL tenha sido demonstrada, ainda não foi investigada a relação do desempenho obtido no teste com outras competências linguísticas, nomeadamente o tamanho do vocabulário recetivo, as capacidades metafonológicas e as habilidades de leitura e escrita. Tal é surpreendente, considerando que este conhecimento nos permitirá perceber que capacidades podem ser treinadas a fim de melhorar o desempenho da criança, tanto na comunicação oral como no processo de aprendizagem da leitura e da escrita. A nossa proposta, assim, visa colmatar esta lacuna no conhecimento sobre a interação entre diferentes competências linguísticas em crianças no 1º Ciclo do Ensino Básico. Abordaremos este aspeto, investigando relações entre capacidades metafonológicas, habilidades de leitura e escrita e conhecimento fonológico de crianças em idade escolar, com e sem PDL. Para o efeito, conduziremos uma avaliação experimental destas várias capacidades. A nossa amostra será constituída por 200 crianças monolingues falantes nativas do PE a frequentar o 1º Ciclo do Ensino Básico, assim como por 40 crianças monolingues com PDL. O teste de RPP contém 72 pseudopalavras que as crianças terão de repetir. Paralelamente, serão usados testes de avaliação do vocabulário recetivo, de capacidades metafonológicas e de habilidades de leitura e escrita.
Área de Filosofia
Financiamento Nacional
INDIS - Indeterminação em Ciência
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.15136.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Michels Robert
Duração: 18 meses (01/02/2025 a 31/07/2026)
Financiamento: 48 567,35€
Resumo: As ciências naturais têm vindo a produzir teorias surpreendentemente detalhas e precisas sobre o universo. A maioria das teorias científicas bem-sucedidas são formuladas usando a linguagem rigorosa da matemática, que permite afastamento da vagueza e da indeterminação (ou ambiguidade) que caracterizam a linguagem e o pensamento correntes. Os problemas substanciais levantados pela indeterminação nos contextos quotidianos são bem conhecidos, como por exemplo o problema do Paradoxo Sorites (ou Paradoxo do Monte), discutido por filósofos desde a Antiguidade. Este paradoxo surge devido à vagueza dos conceitos quotidianos, tais como “monte”, que não possuem fronteiras bem determinadas de aplicação. Os conceitos usados nas teorias científicas em geral não sofrem deste tipo de ambiguidade, pois os termos técnicos que empregam são normalmente definidos com precisão. Porém, recentemente, metafísicos e filósofos da ciência têm, cada vez mais, considerado a possibilidade de que existam outras formas de indeterminação que possam afetar os modelos científicos. A Mecânica Quântica (MQ) é um dos exemplos notáveis da física teórica – uma das teorias empíricas com mais sucesso na história da ciência – que, aparentemente implica que os constituintes fundamentais do nosso universo não são completamente determinados pelas suas propriedades fundamentais.
Este projeto investiga, de forma sistemática, instâncias de alegada indeterminação metafísica (IM), em particular instâncias de indeterminação independentes da linguagem ou da mente no mundo, na ciência. Pretende-se não só analisar criticamente argumentos para a existência de indeterminação em ciência, mas também alargar a investigação a domínios pouco, ou mesmo completamente inexplorados, nas ciências naturais, tais como a física relativista, e elaborar e analisar sugestões controversas recentes sobre os efeitos da indeterminação dos processos causais ou das leis da natureza.
A investigação será conduzida segundo duas perspetivas:
1. filosofia da física
2. metafísica da ciência.
Considerando a filosofia da física, a indeterminação de identidade, nomeadamente a questão se as partículas quânticas são intrinsecamente indistinguíveis, e a indeterminação dos observáveis, especificamente a questão de qual o tipo de IM envolvida na não-atribuição de valores definitivos aos observáveis quânticos, são dois dos pontos focais da discussão existente. O principal foco tem sido na formulação standard da MQ, contudo, a indeterminação também tem sido estudada noutras interpretações do formalismo quântico, tais como a mecânica quântica relacional ou a Interpretação de Muitos Mundos baseada na de-coerência.
Pretende-se expandir esta literatura, que é inteiramente baseada em física não-relativista, para os domínios da Teoria Quântica de Campo (TQC) e da Gravidade Quântica (GQ). TQC é a teoria mais fundamental da matéria que combina a mecânica quântica com a teoria da relatividade restrita. GQ representa o esforço mais avançado de unir a MQ com a teoria da relatividade geral, providenciando uma descrição fundamental do próprio espaço-tempo. Assim, para compreender verdadeiramente se o mundo é inerentemente não-determinista ao nível fundamental é necessário analisar as teorias físicas mais avançadas, com as melhores ferramentas disponíveis na metafísica analítica.
Na segunda parte do projeto, estuda-se a noção de indeterminação na perspética da metafísica da ciência, focando em duas hipóteses recentes.
A primeira hipótese afirma, segundo Chen, que as Leis da Natureza, em particular a Hipótese do Passado, podem ser indeterminadas. Chen depende da conceção modal de leis como restrições e da conceção modal de indeterminação no seu argumento. Ambas conceções modais são controversas. Assim, iremos investigar se é possível construir argumentos semelhantes assentes noutras conceções de leis e noutras conceções mais ortodoxas de IM. Iremos ainda explorar um argumento totalmente novo para a indeterminação das leis da natureza: no contexto da Análise Humeana do Melhor Sistema (Best Systems Analysis – BSA), as leis da natureza são o resultado de um compromisso entre várias virtudes teóricas. O tratamento sistemático dos compromissos em ciência permite diversos casos igualmente (Pareto-)ótimos. No contexto da BSA, tais cenários parecem implicar uma pluralidade de “melhores” sistemas e não um único melhor sistema determinante das leis da natureza. Iremos elaborar este argumento e investigar o impacto para a BSA.
Adicionalmente, iremos investigar argumentos recentes de causação indeterminada. Estes argumentos dependem de casos, cuja inibição em realizar uma certa ação, conduz à seleção de uma única consequência de um conjunto, precisamente por tal inibição, sendo, porém, metafisicamente indeterminado qual a consequência em particular. Iremos investigar se este ou outros argumentos alternativos, propostos recentemente nesta discussão, podem ser replicados no contexto de estudos de processos causais, nas ciências naturais.
RUSSELL - A lógica de Russell e o desenvolvimento de linguagens formais
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2024.15844.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Bruno Jacinto
Instituições de Colaboração: Université Clermont Auvergne, Aix-Marseille Université, University of Vienna
Duração: 18 meses (01/02/2026 a 31/07/2027)
Financiamento: 58 060,71€
Resumo: Qual foi o papel de Bertrand Russell no desenvolvimento das linguagens formais? Este projeto de investigação (RUSSELL) visa esclarecer as divergências e semelhanças entre as principais tendências no desenvolvimento da lógica moderna inicial, com um foco particular no trabalho de Bertrand Russell. Especificamente, o objetivo é examinar as visões de Russell sobre questões metateóricas e a sua contribuição para o surgimento da noção de linguagens formais durante as primeiras décadas do século XX.
O projeto RUSSELL estudará de forma sistemática a formalização da lógica no final do século XIX e estabelecerá uma narrativa sobre como o trabalho realizado por Peano e Schröder lançou as bases para o desenvolvimento da lógica de Russell no início do século XX. Apesar da relevância deste processo para uma compreensão adequada da gênese e desenvolvimento da lógica contemporânea, a relação entre a lógica de Russell, o nascimento das linguagens formais e as contribuições de Peano e Schröder não foi suficientemente estudada. Este projeto tem como objetivo global preencher esta lacuna historiográfica. Ele irá envolver-se com os estudos atuais sobre a lógica do século XIX, particularmente aqueles focados nas contribuições de Russell, ao mesmo tempo que explorará as conexões entre a filosofia da matemática de Russell e abordagens contemporâneas como o neo-lógicoísmo e o estruturalismo.
O projeto RUSSELL procura cumprir três objetivos específicos. Primeiro, determinar em que medida as lógicas de Peano e Schröder serviram de base para a lógica de Russell. Segundo, caracterizar as visões de Russell sobre os resultados metateóricos, tanto de uma perspetiva histórica como contemporânea. Terceiro, avaliar se o trabalho de Russell sobre a teoria dos tipos, e, mais geralmente, a sua conceção dos sistemas lógicos, pode ser conectado — total ou parcialmente — ao desenvolvimento das ferramentas técnicas necessárias para a formalização das teorias matemáticas e lógicas.
Para alcançar estes objetivos, trabalharemos com três hipóteses interligadas. Primeira, Russell refinou as ferramentas formais desenvolvidas por Peano e Schröder para o seu próprio projeto lógico. Segunda, extrair uma linguagem formal da lógica de Principia Mathematica (1910–1913) não estava entre os objetivos ou interesses programáticos de Russell. Terceira, a escolha de Hilbert pela teoria dos tipos em Principia Mathematica (1910–1913) como ferramenta para investigações metateóricas — em vez da lógica algébrica de Schröder — pode ser explicada pelo facto de ser mais simples extrair uma linguagem formal da primeira.
Primeiro, iremos estudar a lógica de Russell, focando-nos na sua notação e sintaxe. A nossa atenção será voltada para a lógica das proposições e das classes de Russell, e tentaremos reconstruir a sua lógica das relações. A partir desta perspetiva, exploraremos, em seguida, as possíveis influências de Peano e Schröder na lógica de Russell. Este esforço é particularmente urgente, pois uma comparação sistemática entre as lógicas de Schröder e Peano com a de Russell é praticamente inexistente na literatura. Por fim, iremos examinar a relação entre a lógica de Russell e a metalógica, considerando-a sob duas perspetivas diferentes. Em primeiro lugar, do ponto de vista histórico, faremos uma reconstrução racional de como a lógica de Russell foi utilizada para formalizar teorias matemáticas e lógicas e investigar questões metateóricas, com foco no trabalho de Hilbert e na escola de Göttingen. Em segundo lugar, do ponto de vista da filosofia contemporânea da matemática, discutiremos como o logicismo (e o neo-logicismo) se posiciona no debate atual em relação a outras abordagens na filosofia da matemática, como o estruturalismo.
Assim, o projeto RUSSELL adotará uma perspetiva historioconsiderando filosófica, combinando a metodologia de reconstrução racional com a discussão filosófica. Uma das prioridades será levar os resultados do trabalho histórico ao debate contemporâneo. Isso contextualizará o desenvolvimento de conceitos-chave e fundamentará as motivações contemporâneas, ligando-as a estratégias de longa data que surgiram no final do século XIX. Como resultado, a combinação de perspetivas histórica e filosófica servirá como uma vantagem metodológica.
Upper - Logicismo Superior
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.17156.ICDT
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Bruno Jacinto
Duração: 36 meses (01/01/2026 a 30/12/2028)
Financiamento: 243 993,60€
Resumo: Através de resultados inovadores que mostram que os axiomas da aritmética, da análise racional e real e da teoria dos conjuntos são deriváveis na lógica modal de ordem superior do princípio de que poderia ter havido qualquer número finito de coisas, e de uma defesa dos pressupostos filosóficos subjacentes, UPPER propõe-se finalmente consumar o projeto através de uma nova síntese entre matemática, lógica e metafísica modal.
Informação detalhada sobre o projecto pode ser encontrada aqui.
Financiamento Internacional
JUSTLA - Justice in the XXI Century: A Perspective from Latin America
Entidade Financiadora: European Research Executive Agency
Referência: 101183054
Papel da FLUL: Instituição Participante
Unidade de Investigação: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Investigador Representante da FLUL: Mariana Teixeira
Instituição Proponente: Università di Catania
Investigador Responsável: Luigi Caranti
Outras Instituições Participantes: Johann Wolfgang Goethe-Universitaet Frankfurt Am Main; Ruhr-Universitaet Bochum; Universidad Complutense de Madrid; Erasmus Universiteit Rotterdam; Universitaet Graz
Duração: 48 meses (01/01/2025 a 31/12/2028)
Financiamento: 1 651 400,00€ (Global), 276 000,00€ (FLUL)
Resumo: The dominant liberal paradigm of justice faces significant challenges, and Latin American institutions offer advanced developments in these research areas, with the region’s social, economic, and political realities providing a unique vantage point for observation. With the support of the Marie Skłodowska-Curie Actions programme, the JUSTLA project is exploring new areas in political theory to challenge this dominant liberal paradigm. It focuses on the relationship between democracy and economic inequality, cultural identities (including gender, race, and decolonisation), the role of science in politics, and climate justice. The project involves leading European and Latin American scholars and aims to enhance collaboration and knowledge sharing among academic institutions in both regions.
PLEXUS - Philosophical, Logical, and Experimental routes to substructurality
Entidade Financiadora: European Research Executive Agency
Referência: 101086295
Papel da FLUL: Instituição Participante
Unidade de Investigação: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Investigador Representante da FLUL: Ricardo Santos
Instituição Proponente: Universidad de Navarra
Investigador Responsável: Pablo Cobreros
Instituições Participantes: Università degli Studi di Torino; École Normale Superieure; Universiteit Van Amsterdam; Universita degli Studi di Cagliari; Consejo Nacional De Investigaciones Cientificas y Tecnicas; Monash University; The City University of New York Graduate Center Cuny; King's College London
Duração: 48 meses (01/01/2023 a 31/12/2026)
Financiamento: 556 600,00€ (Global), 46 000,00€ (FLUL)
Resumo: There is a large family of non-classical logics that fall under the heading of substructurality. Among the logics in the substructural family, the recent philosophical literature pays particular attention to what can be termed “radically substructural logics”: nontransitive and non-reflexive reflexive logics as well as variants and hybrids of these obtained by metainferential ascent. The overall goal of PLEXUS is to advance the knowledge of radical substructural logics and deepen our understanding of the broader phenomenon of substructurality, by coordinating the efforts of researchers across the globe, across generations, and across traditions. We see our project characterised by the following concepts: integration, cross-fertilization and knowledge sharing.
This general objective is articulated in three objectives:
1. Philosophical Foundations: investigate the main philosophical challenges raised by radically substructural logics.
2. Logic and applications: investigate proof-theoretic and model theoretic characterizations of radically substructural logics and their logico-linguistic applications.
3. The Metainferences Inventory and Metainferences Prover: develop a tool to measure naïve reasoners' preferences on metainferences and implement an automatic metainferences prover.
Área de História
Financiamento Nacional
50Layers - 50 camadas de uma revolução: a Arqueologia Pré-histórica depois do 25 de abril de 1974
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.10940.25ABR
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Cristina Gameiro
Duração: 18 meses + 6 meses (01/09/2024 a 31/08/2026)
Financiamento: 24 928,83€
Resumo: O projeto 50LAYERS visa abordar as diferentes camadas da Arqueologia pré-histórica antes e depois do 25 de abril, questionando a dimensão política das ideias, conceitos e metodologias que enquadram a prática arqueológica. Neste sentido, estrutura-se em torno de três questões: 1) Como evoluíram as narrativas sobre pré-história em Portugal? 2) De que forma os pré-historiadores enquadram e apresentam o significado político do seu trabalho, contribuindo para alterar os limites e as possibilidades ditadas por diferentes regimes políticos e contextos socioculturais? 3) Como pode a arqueologia pré-histórica intervir ativamente nos desafios da democracia, e de que maneiras os pré-historiadores podem demonstrar a responsabilidade cívica na sua investigação?
Para responder a estas questões, o 50 LAYERS irá promover as seguintes atividades: i) a utilização de técnicas de ciência de dados (IA) para analisar narrativas escritas e questionar as transformações dos discursos; ii) a organização de quatro Workshops dedicados à discussão dos desafios da arqueologia nos dias de hoje (educação, igualdade de género, descolonização e perspectivas de futuro); iii) a realização de um inquérito dedicado à temática do projeto, do qual resultará um catálogo e uma exposição. Com efeito, o inquérito permitirá a participação coletiva de todos os arqueólogos que poderão propor um objeto (peça arqueológica ou não) que ligue a Arqueologia pré-histórica com o significado do 25 de abril. Todas as propostas constarão de um catálogo digital e os 50 objetos mais ilustrativos, de todas as camadas de História que podem ser contadas, serão escolhidos para uma exposição temporária a realizar no Museu do Côa.
Explorando a intrincada relação entre política e ciência, o projeto pretende celebrar os ideais de abril, compreender a sua importância na consolidação para arqueologia em Portugal, e sensibilizar para a necessidade da pluralidade crítica e reflexiva na produção do conhecimento arqueológico.
MOBlades - Proveniência da matéria-prima das lâminas como indicador da mobilidade humana ao longo do Calcolítico do SW da Península Ibérica
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.13251.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Patrícia Amador Poeira dos Santos Jordão
Instituições de Colaboração: Laboratório Nacional de Energia e Geologia, I.P.; Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Granada; ERA Arqueologia SA; Associação dos Arqueólogos Portugueses
Duração: 18 meses (01/02/2025 a 31/07/2026)
Financiamento: 49 764,02€
Resumo: Nos últimos anos, estudos de proveniência de matérias-primas, juntamente com o desenvolvimento de análises de isótopos de estrôncio e estudos de ADN, forneceram novas evidências acerca da mobilidade de pessoas e objetos na Europa, na Pré-história recente. Uma avaliação detalhada das matérias-primas disponíveis, tanto a nível local como regional, em cada território, é crucial para compreender a mobilidade e as redes de troca destas comunidades, principalmente nas sociedades do 3º milénio a.C., com base num sistema de “Complexo de recursos”, inserido numa “rede de relações” já inscritas na tradição.
No entanto, só muito recentemente foram iniciados os primeiros estudos petroarqueológicos no SW peninsular, em sítios do Calcolítico da Estremadura Portuguesa, encabeçados pela PI (Patrícia Jordão), cujos resultados permitiram a identificação de vias e modalidades de circulação de rochas siliciosas, a definição dos respectivos territórios de aprovisionamento directo, nos quais se detectou também a presença de matéria-prima regional e de circulação extra-regional, nomeadamente nas lâminas. Saliente-se que estes artefactos, sistematicamente presentes nos sítios calcolíticos, não têm sido alvo de estudos integrados que abordem a origem das matéria-prima, a tecnologia, a morfologia e a função. E com efeito, são as grandes lâminas que potencialmente fornecem mais pistas sobre: 1) as redes de circulação e troca de longa distância, quando suportadas pelo conhecimento prévio do território de abastecimento direto em interseção com o “território tecnológico”; 2) o significado cultural desse “pacote” de importação, ao combinar as variáveis: quantidade, tamanho, técnica de produção e proveniência da matéria-prima.
A bibliografia actual sobre a proveniência de sílex no SW da Península Ibérica é omissa na exploração de dois aspectos importantes que tornam o estudo das lâminas inviável: 1) um conjunto adequado de amostras como referencial geológico; 2) a impossibilidade de aplicação de técnicas analíticas destrutivas a estes materiais arqueológicos.
Para preencher estas duas principais lacunas nos estudos de proveniência em geral, e nas lâminas de sílex em particular, o projecto MOBlades reuniu uma equipa multidisciplinar com conhecimentos aprofundados em Geoarqueologia, com o objectivo de proceder a uma recolha alargada de amostras, desde a Bacia Lusitânica (Centro-Oeste de Portugal) até à Zona Subbética (Sudoeste de Espanha) que pudessem ser correlacionadas com a matéria-prima de dois conjuntos de lâminas de sítios complementares: Vila Nova de São Pedro (Estremadura) e Perdigões (Alentejo), combinando a abordagem clássica petrográfica com técnicas analíticas inovadoras não destrutivas, para determinação mineralógica e geoquímica (Espectroscopia de Micro-Raman e Fluorescência de raio-X). A informação decorrente destes dados juntamente com a análise tecno-tipológica das lâminas dos Perdigões e de Vila Nova de São Pedro no contexto dos respectivos territórios de abastecimento, permitirá desvendar o estatuto cultural destes objectos e as motivações do seu intercâmbio em redes extra-regionais.
O projecto MOBlades espera contribuir, em primeiro lugar, para melhorar a correlação entre matérias-primas siliciosas geológicas e arqueológicas, com base na utilização do mesmo protocolo petroarqueológico, com a componente de análise geoquímica, e produzir uma base de dados geoarqueológica detalhada de matérias-primas siliciosas, crucial para o sucesso de qualquer estudo de proveniência. Em segundo lugar, pretende-se identificar e validar tipos de sílex das lâminas como indicadores litológicos de circulação, cujo valor cultural é intrínseco aos contextos arqueológicos de Perdigões e de Vila Nova de São Pedro, que se tornam assim casos de estudo incontornáveis para a compreensão da mobilidade humana na Pré-história recente do SW Peninsular.
Assume-se que a avaliação da correlação entre o “sílex geológico” e “sílex arqueológico” de ambos os sítios arqueológicos contribuirá irrefutavelmente para a compreensão da mobilidade humana no quadro das redes de troca no 3º milénio a.C. Por último, espera-se que os resultados sejam discutidos em encontros científicos, e partilhados por um público diversificado, em particular nos espaços do Museu Arqueológico do Carmo. Finalmente, os dados geológicos recolhidos neste projecto ficarão disponíveis em base de dados, ligados à plataforma cartográfica europeia Cartosilex. As amostras geológicas, bem como os produtos de debitagem resultantes das atividades de arqueologia experimental, serão integrados na ARQUEOLit, uma litoteca e tecnoteca de acesso aberto, em construção na UNIARQ.
PAGODE - A arquitectura de influência portuguesa do templo hindu goês no seu contexto sócio-político
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2024.16491.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: ARTIS - Instituto de História da Arte
Investigador Responsável: Joaquim Manuel Rodrigues dos Santos
Instituições de Colaboração: Goa College of Architecture, Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Duração: 18 meses (01/12/2025 a 31/05/2027)
Financiamento: 59 959,15€
Resumo: O século XVI assistiu à destruição de templos hindus nas Velhas Conquistas de Goa, após a conquista portuguesa deste território, bem como à proibição de construir novos. No entanto, essa destruição e proibição não ocorreram nas Novas Conquistas de Goa, conquistadas pelos portugueses ao longo do século XVIII; e é precisamente aqui que parece ter surgido primeiro um novo tipo arquitetónico de templo hindu, resultando dos novos valores liberais dos governos portugueses. O contexto liberal fortaleceu o poder e a prosperidade das elites hindus locais, especialmente as castas dominantes de brâmanes ou Saraswats (como ficariam conhecidos no final do século XIX), os quis conseguiram utilizar as novas regras de registo de propriedades dos templos a seu favor, tornando-se proprietários legais de muitos templos. Isso diminuiu a posição e influência de outras comunidades nos santuários das aldeias e acentuou um funcionamento hierárquico desses santuários, que não só se reflectiu na arquitectura, mas também levou a um intenso – embora invisibilizado – conflito social na Goa contemporânea.
A nova arquitectura foi influenciada pela arquitectura do Barroco europeu, através das igrejas católicas goesas, e também pela arquitectura islâmica dos sultanatos do Decão e dos mogóis, provavelmente através dos templos maratas ou da arquitectura indo-sarracena britânica. A construção de templos fez-se em grande escala no século XIX, tanto nas conquistas antigas como nas novas, e parece ser nesta altura que surgiu um tipo de “templo goês”, com a sua característica arquitectura heterogénea. A partir da década de 1940, no entanto, este tipo começou a declinar, o que se acelerou após 1961, e ainda mais desde a década de 1990.
O projecto de investigação pretende examinar a arquitectura do templo goês, através de uma rigorosa documentação arquitectónica (plantas e modelos 3D de casos paradigmáticos), do levantamento fotográfico dos exemplos inalterados, do mapeamento das mudanças, do desenvolvimento de uma cronologia de construção e reconstrução de templos em Goa, e do exame do contexto arquitectónico: edifícios religiosos hindus anteriores à presença portuguesa em Goa, edifícios religiosos hindus fora de Goa, e arquitetura goesa de influência portuguesa. O projecto de investigação também irá documentar o contexto social e o significado desses locais religiosos no passado e hoje, para criar um registo de propriedade, gestão, funcionamento diário e festividades, e também para documentar as muitas questões de contestação e conflito.
Um exame dos cultos de templo mais comuns em Goa (muitos dos quais estão a desaparecer), incluindo a existência de um culto a Brahma em Goa– um dos únicos três locais deste culto na Índia – será também um caso de estudo privilegiado. Ambas as partes envolverão um exame do registo histórico e entrevistas com todas as partes ligadas aos templos, incluindo o governo, as autoridades da aldeia, os proprietários/gerentes do templo, os funcionários do templo, e as comunidades de crentes. Além disso, a “migração” de alguns antigos templos hindus dos territórios das Novas Conquistas para os seus lugares originais nas Velhas Conquistas também será abordada nesta pesquisa.
Este projecto pretende desenvolver um quadro teórico e crítico inovador, apoiado por uma estratégia de internacionalização, trabalho em rede interdisciplinar e intercâmbio ético de conhecimento, para o estabelecimento de uma liderança em estudos críticos de patrimónios transculturais. A viabilidade deste projecto ambicioso assenta em características sólidas: uma equipa multidisciplinar composta por especialistas estabelecidos de instituições de renome que oferecem condições óptimas, liderada por um IR com resultados comprovados nas várias colaborações com grupos de investigação internacionais detentores de diferentes competências complementares. A disseminação dos resultados (artigos científicos, conferências e workshops) e a formação são também prioritários de modo a estabelecer laços entre este património singular, os estudiosos, e a sociedade em geral.
O objectivo deste projecto pioneiro é essencialmente testar as problemáticas identificados e averiguar as possibilidades reais de lançar as bases para um projecto de investigação de maior envergadura a desenvolver futuramente, em colaboração com instituições e especialistas locais e com um âmbito internacional, transcultural e multidisciplinar. No entanto, a proposta abre desde já a oportunidade para se produzir um conjunto consistente de conhecimento com a capacidade e objectivo de abordar, tanto a nível local como internacional, a importância de estudar e preservar o património único do templo goês, ignorado tanto pelas autoridades portuguesas como indianas – certamente devido ao seu carácter mestiço.
PALAEOWESTIBERIA - Padrões de Subsistência e Respostas Adaptativas de Homens Modernos, Neandertais e Pré-Neandertais na Fachada Atlântica da Península Ibérica
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.16301.ICDT
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Mariana Nabais
Duração: 36 meses (01/01/2026 a 30/12/2028)
Financiamento: 232 848,00€
Resumo: A investigação em Evolução Humana, com foco nas interações e adaptações das mais antigas populações, é vital para a compreensão do presente. A contínua ocupação e importância dos seus sítios fazem da fachada atlântica ibérica um terreno ideal para estes estudos. O projecto investiga estratégias adaptativas de Humanos Modernos, Neandertais e seus precursores, através de escavações e de análises multidisciplinares dos achados.
PHOENSET - Os primeiros colonos fenícios em Lisboa
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2024.14484.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Elisa Sousa
Duração: 18 meses (01/02/2026 a 31/07/2027)
Financiamento: 58 971,04€
Resumo: O projeto PHOENSET centra-se na análise dos estágios iniciais da colonização fenícia em Lisboa e Baixo Tejo, abordando a origem dos grupos exógenos que se estabeleceram na região e enfrentaram processos de adaptação socioeconómica, cultural e ambiental num novo território.
A base da investigação é sustentada por descobertas realizadas em 2014 pela empresa NeoÉpica na zona histórica de Lisboa (atual Hotel Aurea Museum), que revelaram os contextos fenícios mais antigos da região (século VIII a.C.). Entre os materiais encontrados, destacam-se cerca de duas centenas de fragmentos cerâmicos, que incluem produções manuais e a torno (ânforas, cerâmica comum, pintada e de engobe vermelho).
De particular relevância, as cerâmicas a torno são claramente importadas de centros fenícios do sul da Espanha e, possivelmente, de outras áreas do Mediterrâneo, como o Líbano, Tunísia e Sardenha. Essas regiões são as únicas que, nessa cronologia, empregam as tecnologias orientais (roda de oleiro e fornos de câmara dupla) na produção cerâmica. No território português, tais tecnologias só serão implementadas a partir do século VII a.C., atestando a antiguidade e singularidade dos contextos mencionados. Os níveis do Hotel Aurea Museum espelham, consequentemente, as redes de contacto, abastecimento e origem dos primeiros colonos fenícios do Extremo Ocidente Atlântico.
A colonização do Baixo Tejo foi a culminação de uma empresa que permitiu aos fenícios unir, na primeira koiné mediterrânea, as regiões do actual Líbano, Chipre, Tunísia, Itália, Argélia, Marrocos, Espanha e Portugal. O estudo dos momentos iniciais da presença fenícia em Lisboa é essencial para compreender este complexo fenómeno histórico, marcado por migrações, encontros interculturais, processos de hibridização e adaptações ambientais.
Os resultados terão impacto significativo na comunidade científica internacional, oferecendo uma oportunidade única para rastrear a origem desses grupos e reconstruir as etapas da colonização fenícia no extremo ocidente.
Esta investigação será desenvolvida com uma abordagem multidisciplinar que combina estudos tradicionais arqueológicos com técnicas de caracterização físico-química e petrográfica. A partir de uma pergunta de investigação específica e de um estudo detalhado dos materiais, propomos levar a cabo análises arqueométricas da totalidade do conjunto cerâmico que acompanhou os primeiros colonos, amortizado nos primeiros níveis de ocupação do atual Hotel Aurea Museum. A possibilidade de contar com níveis conservados, bem contextualizados e um repertório preciso permite analisar a totalidade do material, o que será uma novidade no panorama internacional e permitirá traçar a origem de cada artefacto.
A análise abrangerá as cerâmicas elaboradas a torno (seguramente exógenas) e as produções manuais, procurando, neste caso, estabelecer conexões com grupos locais ou identificar possíveis origens externas, na medida em que a mobilidade de agentes indígenas no quadro dos processos coloniais foi já atestada em outras áreas do Mediterrâneo. Os resultados das técnicas químicas e petrográficas serão integrados e comparados com bases de dados abrangentes no contexto mediterrâneo, visando determinar a origem dos artefactos.
A equipa de investigação reúne as competências necessárias para o desenvolvimento do projecto: os investigadores possuem amplo conhecimento das problemáticas e da cultura material da Idade do Ferro; conta com investigadores especializados no campo da geologia e arqueometria, particularmente na análise de materiais cerâmicos e sua interpretação histórico-arqueológica; os responsáveis das intervenções (Neoépica) trazem conhecimentos especializados sobre a estratigrafia e a escavação; o projeto inclui ainda um contrato para formar um licenciado no campo da arqueometria, potenciando um percurso académico e profissional numa área de especialidade pouco desenvolvida em Portugal.
O caráter inovador do projeto reside no facto de ser a primeira vez que se analisam integralmente os conjuntos artefactuais dos mais antigos níveis de ocupação fenícios do litoral português, com foco na identificação das redes de contacto, abastecimento e origem dos agentes envolvidos, rastreando a origem dos artefactos que os acompanharam neste processo. Esta abordagem é possível graças à dimensão restrita do conjunto, recuperado em intervenções realizadas com metodologias modernas e registo pormenorizado.
Os resultados permitirão discutir a importância que as áreas do sul peninsular e Mediterrâneo Central e Oriental terão tido nos primeiros momentos da colonização fenícia do Ocidente Atlântico. A proveniência das cerâmicas analisadas será a base para reconstruir a origem dos indivíduos que decidiram procurar uma nova vida nesta região do Baixo Tejo, culminando na emergência de um dos mais importantes núcleos da Idade do Ferro do Ocidente Europeu.
TransTexTec - Em busca de transições nas tecnologias e economias têxteis no longo II milénio a.n.e. (2200 - 700 a.n.e.): o Sul do território português como caso de estudo
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.13050.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Francisco João Bentes Gomes
Instituição de Colaboração: Universidade de Coimbra
Duração: 18 meses + 6 meses (01/02/2025 a 31/01/2027)
Financiamento: 49 884,22€
Resumo: Os têxteis constituíram uma parte maior dos mundos materiais das comunidades do passado; cumprindo um leque de funções, das mais utilitárias até às mais ricas em significados simbólicos, ajudaram a dar forma à vida dos grupos humanos de formas profundas e repletas de sentido. Contudo, a sua natureza perecível implica que raramente se documentem no registo arqueológico, levando a que o seu papel tecnológico, económico e social no passado tenda a ser esquecido.
Foi este certamente o caso na investigação arqueológica portuguesa, na qual o tópico da produção têxtil permanece pouco explorado. Apesar disso, trabalhos recentes têm vindo a ilustrar as características técnicas, a organização e a escala da produção têxtil em períodos específicos, nomeadamente o Calcolítico (≈ 3º milénio a.n.e.) e a Idade do Ferro (≈ 1º milénio a.n.e.). Contudo, o panorama resultante continua a estar marcado por um vazio informativo correspondente à Idade do Bronze (IB) (≈ 2º milénio a.n.e.). Esse vazio pode explicar-se pela falta de dados, que só recentemente começou a paliar-se mediante escavações preventivas e de investigação, mas também por uma falta de investigação sobre este tema para este período crucial.
Esta situação é especialmente desafortunada, na medida em que a IB corresponde a um período crítico de transição tecnológica a nível da produção têxtil. Um volume crescente de dados na Europa e no Mediterrâneo têm vindo a consolidar a imagem de que o 2º milénio a.n.e. constitui um momento de viragem fundamental nas economias têxteis, com a generalização do uso da lã como fibra têxtil. Esta alteração produtiva teve uma série de ramificações tecnológicas, económicas e sociais, que são atualmente objeto de um aceso debate internacional e interdisciplinar.
A investigação recente no território espanhol parece indicar que esta ampla “revolução têxtil” da IB alcançou também a Península Ibérica pelo menos a partir de meados do 2º milénio a.n.e. No entanto, o seu potencial impacto no território português continua por avaliar. As evidências disponíveis parecem, contudo, indiciar que também aqui a IB assistiu a uma transição significativa ao nível das tecnologias e economias têxteis, cuja natureza, significado e impacto permanece por explorar.
Com o intuito de preencher esta lacuna, o projeto TransTexTec propõe uma abordagem integrada multi-proxy à produção têxtil na IB do Sul de Portugal, com uma ênfase particular na região do Alentejo como caso de estudo. Uma vez que os vestígios têxteis preservados são extremamente raros para este período e área, a análise do desenvolvimento da produção têxtil requer uma análise interdisciplinar de múltiplos tipos de evidência no sentido de reconstruir a cadeia operatória têxtil neste período.
O projeto focar-se-á, mais especificamente, em quatro classes de dados: 1) biofactos que possam oferecer informação sobre os padrões de aprovisionamento de fibras têxteis, com um foco principal nos dados zooarqueológicos relacionados com a criação de ovelhas; 2) instrumentos têxteis (cossoiros e pesos de tear) que parecem indicar uma significativa transformação tecnológica neste período que deve ser analisada mediante estudos tipológicos, morfométricos, de marcas de uso e experimentais mais detalhados; 3) dados bioantropológicos sobre as marcas ósseas e dentais relacionadas com atividades têxteis, que oferecem também indícios sobre a identidade e estatuto dos artesãos; e 4) evidências indiretas da natureza dos têxteis e vestimentas usados pelos grupos locais, incluindo acessórios de vestimenta e potenciais representações iconográficas de padrões têxteis noutros suportes (p. ex., cerâmica).
Mediante a combinação de todas estas classes de evidências, o projeto pretende caracterizar a transição nas tecnologias e economias têxteis antes mencionada, tentando situá-la no tempo, compreender os mecanismos de transmissão tecnológica e/ou inovação por trás da mesma, e avaliar as suas ramificações sociopolíticas e o seu possível papel nos processos de mudança social que resultaram na génese do Bronze Final (BF).
Compreender esta transição, contudo, requer uma análise contextual e comparativa, tanto num sentido diacrónico como sincrónico. Em relação ao primeiro, o projeto propõe-se considerar os dados da IB regional no âmbito de um “longo segundo milénio a.n.e.” (2200 – 700 BCE), contextualizando as tecnologias e economias têxteis deste período mediante uma comparação com os seus antecedentes imediatos do Calcolítico Final, e os seus sucessores do início da Idade do Ferro.
Quanto à segunda, os dados do Sul de Portugal serão sistematicamente comparados com a informação de outras áreas, com particular atenção à vizinha Espanha. O objetivo final passa por compreender o papel dos contatos interculturais e da transferência de conhecimento nas já referidas transições económica e tecnológica, mas também incorporar o território português em discussões internacionais mais amplas sobre a “revolução têxtil” da IB.
UPDOG - Desvendando as Histórias dos Cães Portugueses: Perspetivas da Zooarqueologia
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2024.15279.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa
Investigador Responsável: Cleia Detry
Instituições de Colaboração: Universidade do Algarve - Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade de Évora, Universidade Lusófona, Institut des Sciences de l'Evolution de Montpellier (UMR 5554) - Université de Montpellier 2
Duração: 18 meses (01/02/2026 a 31/07/2027)
Financiamento: 60 000,00€
Resumo: Como primeira espécie domesticada, os cães desempenharam papéis cruciais nas sociedades humanas por milhares de anos, servindo para múltiplas funções, incluindo companheiros de caça, auxiliares no pastoreio, guardas e animais de companhia. A identificação e o estudo dos seus restos arqueológicos proporcionam uma oportunidade única para investigar as complexas interações entre humanos e canídeos, esclarecendo como essas relações evoluíram em resposta a mudanças ambientais, económicas e culturais.
Do ponto de vista científico, este projeto irá registar e quantificar informações para fomentar a compreensão dos processos de domesticação, seleção artificial e estratégias adaptativas dos animais, funcionando como um proxy dos humanos. Através da análise das características morfológicas dos cães e da sua datação por radiocarbono (14C) , será possível reconstruir aspetos da sua cronologia e papéis sociais dentro das sociedades do passado. Os resultados fornecerão uma abordagem multidisciplinar para a interpretação do passado, cruzando Zooarqueologia e osteometria com Antropologia, História ambiental e cultural.
O estudo dos cães antigos também tem o potencial de gerar um grande interesse público. Os cães ocupam um lugar especial na vida humana atualmente, e a sua importância histórica ressoa com um público amplo. Ao revelar como os cães foram integrados nas sociedades do passado, tratados em contextos rituais ou adaptados a diferentes ambientes, esta investigação torna a arqueologia mais acessível e relevante. Exposições, palestras públicas e programas de divulgação inspirados nestes estudos podem ajudar a aproximar a descoberta científica do interesse do público pelo património cultural.
Propomos analisar pelo menos 50 enterramentos de cães em sítios arqueológicos de Portugal, abrangendo desde o Mesolítico até aos períodos históricos, bem como tentar encontrar vestígios de canídeos anteriores. Este estudo irá documentar informações morfológicas, biológicas, patológicas e tafonómicas, além de realizar medições e gerar dados de morfometria geométrica para aprofundar a compreensão sobre estes restos.
O projeto pretende expandir o conhecimento sobre a domesticação dos cães, examinando quando, onde e como foram integrados nas sociedades humanas. Práticas rituais, como enterramentos e oferendas, fornecerão informações sobre os seus papéis simbólicos, enquanto estudos morfológicos revelarão traços funcionais moldados por pressões seletivas. Será também analisada a adaptação dos cães a diferentes climas, como o desenvolvimento de membros alongados em regiões mais quentes, oferecendo perspetivas mais amplas sobre a coevolução entre humanos e animais.
Além disso, serão desenvolvidos protocolos standardizados para a escavação, registo e análise de restos de cães, melhorando a consistência e a recolha de dados em futuras escavações arqueológicas.
Para alcançar estes objetivos, o projeto integrará os dados recolhidos numa base de dados abrangente, realizará datações por radiocarbono, aplicará análises osteométricas e de morfometria geométrica e disseminará os resultados obtidos.
Um dos desafios centrais é a frequente discrepância entre as datas de radiocarbono e a cronologia dos contextos arqueológicos. Muitos espécimes foram datados e demonstraram pertencer a períodos diferentes daqueles em que foram escavados, revelando histórias complexas dos sítios arqueológicos. Este projeto analisará essas discrepâncias, identificando padrões que possam refinar as avaliações cronológicas e melhorar as metodologias de escavação. Aproximadamente 40 datações por radiocarbono (14C) serão obtidas para estabelecer a cronologia precisa dos restos de cães. Ao abordar essas lacunas, pretendemos melhorar a interpretação arqueológica dos sepultamentos de cães e da sua relevância cultural mais ampla, garantindo que os seus vestígios contribuam significativamente para o estudo das interações entre humanos e animais no passado.
Para além da disseminação científica, os resultados do projeto serão divulgados através de exposições, redes sociais e iniciativas educativas, aproveitando o interesse generalizado por cães para atrair a atenção do público para a Arqueologia.
Área de Literaturas, Artes e Culturas
Financiamento Nacional
ARCA - Arquivo digital de história e memória dos retornos das colónias africanas
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.10715.25ABR
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Estudos Comparatistas
Investigadora Responsável: Elsa Peralta
Instituição de Colaboração: Universitetet i Agder
Duração: 18 meses + 6 meses (01/09/2024 a 31/08/2026)
Financiamento: 24 990,47€
Resumo: O 25 de abril de 1974 marcou não só o início da democratização de Portugal, mas também o arranque do processo de descolonização que levou ao reconhecimento da independência dos territórios africanos sob domínio português. Como consequência, mais de meio milhão de colonos, principalmente de Angola e Moçambique, retornaram a Portugal em 1975. O projeto ARCA tem como objetivo participar na construção da memória e da história destas migrações de retorno através de uma plataforma digital que serve como arquivo histórico e ferramenta de disseminação de conhecimento, tanto para a comunidade académica quanto para a sociedade civil. O ARCA disponibilizará documentos de arquivos históricos portugueses e internacionais, materiais de imprensa, registos audiovisuais, objetos de memória e testemunhos orais recolhidos ao longo dos anos pelos membros da equipa. Além disso, o arquivo incluirá recursos de investigação, educativos e críticos.
O ARCA pretende ser um instrumento de documentação histórica, de comunicação cultural e de intervenção cívica, promovendo parcerias para aumentar o seu impacto público e fomentar o diálogo em torno deste importante capítulo da história portuguesa. Além disso, o ARCA insere as migrações de retorno portuguesas no contexto mais amplo das migrações de descolonização europeias, contribuindo para uma compreensão mais profunda do impacto desses fluxos migratórios na configuração da Europa pós-colonial.
O ARCA tem uma equipa de investigação internacional e multidisciplinar, que inclui dois antropólogos, Elsa Peralta (PI) e Bruno Góis, e dois historiadores, Morgane Delaunay (co-PI) e Christoph Kalter. Os seus consultores também provêm de diferentes disciplinas: Rui Pena Pires, da sociologia; Santiago Pérez Isasi, dos estudos culturais; e Andreas Fickers, da história digital e pública.
Hospedado no Centro de Estudos Comparatistas (CEComp) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em parceria com a Universidade de Agder, o ARCA promove um diálogo estimulante entre as ciências humanas e sociais. Contribuirá para o já vasto corpo de conhecimento produzido pelo CEComp através de abordagens multidisciplinares e transculturais a questões de comparação, assim como para o seu crescente interesse no campo das humanidades digitais.
ATWDCCP - Encostados à parede: um ensaio sobre cidadania digital e convivialidade em Portugal
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2024.16346.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Estudos Comparatistas
Investigadora Responsável: Silvia Valencich Frota
Instituição de Colaboração: University of Portsmouth
Duração: 18 meses (01/02/2026 a 31/07/2027)
Financiamento: 45 969,53€
Resumo: A cidadania é frequentemente concebida como um estatuto jurídico estático, um conjunto de direitos e deveres atribuídos aos indivíduos pelo Estado-nação. No entanto, estudos recentes destacam a relação dialética entre inclusão e exclusão no cerne da cidadania (Barrios Aquino, 2022). Esta investigação desafia categorias binárias tradicionais—migrante/cidadão, eu/outro, legal/ilegal—ao focar-se nas práticas quotidianas de convivialidade que moldam as nossas democracias. O objetivo é redefinir a cidadania para além do enquadramento jurídico, incorporando as suas manifestações culturais e digitais e enfatizando a participação na sociedade contemporânea.
Este projeto propõe uma abordagem inovadora da cidadania que transcende as restrições territoriais e legais, explorando também como as plataformas digitais mediam e transformam o envolvimento cívico. Visa mapear os discursos e experiências vividas de cidadania sobretudo em Arroios (Lisboa), nas também Stockwell (Londres), expandindo o conceito para incluir dinâmicas mediáticas e digitais. Outro objetivo central é identificar espaços de negociação e formação de opinião, tanto físicos quanto digitais, no contexto da sociedade em rede, considerando os impactos da dataficação e plataformização. Além disso, o projeto promoverá a literacia digital para a cidadania, dotando diversos atores sociais de competências essenciais para a expressão, negociação e participação nos espaços públicos.
A investigação adota uma abordagem qualitativa e de métodos mistos. A análise do discurso e dos média examinará narrativas sobre cidadania nos média convencionais e alternativos, incluindo jornais, blogues, podcasts e redes sociais. O trabalho de campo etnográfico envolverá a observação de práticas cívicas em espaços digitais e públicos, complementada por entrevistas informais com associações sociais e educativas e autoridades locais. As iniciativas de envolvimento comunitário serão centrais, incluindo a organização de conferências, mesas-redondas e plataformas digitais para facilitar o debate público e disseminar os resultados. Além disso, serão desenvolvidos programas de formação para reforçar a literacia digital e capacitar indivíduos para navegar no espaço cívico contemporâneo.
A urgência desta investigação reside no crescimento global de discursos nacionalistas excludentes, que constroem definições rígidas de pertença e marginalizam populações vulneráveis. À medida que a cidadania se torna cada vez mais mediatizada e digitalizada, torna-se essencial examinar como indivíduos e comunidades interagem nas cidades. Ao incluir a negociação e a representação da cidadania nas arenas digitais, este estudo propõe um modelo para fomentar uma participação pública mais inclusiva.
A abordagem inovadora do projeto integra estudos culturais e de comunicação com as humanidades digitais, fornecendo um enquadramento interdisciplinar para analisar a cidadania para além das estruturas jurídicas tradicionais. Diferente de estudos que abordam separadamente políticas migratórias ou literacia digital, esta investigação articula ambos os domínios, oferecendo ferramentas práticas para combater a exclusão e fortalecer o sentimento de pertença.
O projeto gerará conhecimentos valiosos sobre as dinâmicas da cidadania digital e do envolvimento cívico, contribuindo para o debate académico e aplicações práticas. Os resultados esperados incluem uma análise aprofundada dos discursos sobre cidadania digital, bem como a identificação dos principais espaços e fluxos de negociação e participação cívica na esfera pública digital. A investigação reforçará ainda a literacia digital e mediática nas comunidades locais, garantindo uma participação mais equitativa. Além disso, contribuirá para o desenvolvimento de recomendações políticas e programas de formação que promovam a inclusão digital. Para facilitar a troca de conhecimentos e a sensibilização pública, o projeto criará materiais educativos e recursos online.
O impacto desta investigação vai além da academia, abordando questões sociais prementes, como xenofobia, desigualdade digital e exclusão social. Fornecerá a decisores políticos, educadores e líderes comunitários estratégias concretas para fomentar uma participação democrática mais inclusiva na era digital.
Este estudo desafia conceções convencionais de cidadania ao demonstrar como os ambientes digitais funcionam como espaços centrais de negociação, participação e formação identitária. Ao focar-se nas interações digitais quotidianas e nas suas implicações para a vida cívica, o projeto propõe um modelo transformador para repensar a cidadania no mundo em rede. Os resultados contribuirão não apenas para debates académicos, mas também para intervenções políticas e sociais concretas, capacitando comunidades para uma participação mais ativa nos processos democráticos. Em última instância, este trabalho visa construir um modelo de cidadania dinâmico, inclusivo e responsivo às complexidades da sociedade contemporânea.
LITCOL-PORT: A Literatura Colonial Portuguesa: Além da Memória do Império
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2022.06543.PTDC
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Estudos Comparatistas
Investigadora Responsável: Inocência Mata
Instituição de Colaboração: Universidade de São Paulo
Duração: 36 meses + 6 meses (01/03/2023 a 31/08/2026)
Financiamento: 218 637,60€
Resumo: Este projecto propõe um estudo circunstanciado (levantamento, análise e sistematização das suas origens, o desenvolvimento e o lugar nos sistemas literários africanos e portugueses a partir de uma abordagem crítica e teórica de caráter pós-colonial) de obras literárias que constituem a chamada Literatura Colonial Portuguesa do século XX, com destaque àquelas que foram premiadas pelos Concursos de Literatura Colonial (1926-1951) e pelos Concursos de Literatura do Ultramar (1954-1971). A razão desta proposta tem a ver com o facto de, quase 50 anos após o fim do Império, essas obras não serem, grosso modo, reconhecidas como parte integrante dos sistemas literários dos países africanos de língua oficial portuguesa – embora com excepções que constituirão um dos núcleos das problematizações desta investigação – enquanto, por outro lado, ainda constituem um corpus ausente da historiografia literária portuguesa. Paralelamente, considera-se fundamental uma investigação rigorosa desse corpus, bem como da sua disseminação e fortuna crítica, à luz das demandas e das perspectivas teóricas dos chamados Estudos Pós-coloniais. Tal abordagem impõe-se como necessária para que seja possível uma crítica, urgente, da lógica e das dinâmicas culturais do Império, veiculadas por uma parte relevante desse corpus. Tratar-se-ia de uma crítica parcial ou totalmente inédita, considerando o silencio e a ausência de estudos sistemáticos sobre essa produção. Nesse sentido, incluem-se também, no presente estudo, obras publicadas após a independência das colónias portuguesas de África, mas que se entendam construírem-se sob o signo da colonialidade, participando de uma estética de subalternização, em contraponto com a ideologia estética do nacionalismo e da afirmação cultural.
Com efeito, tanto a posição histórica e ambígua dessas obras tanto a sua intrínseca relevância política convidam, quase meio século após as independências formais desses países, uma avaliação mais apurada, que as problematize a partir dos sentidos que foram percebidos pelos membros dos júris dos concursos, pelos editores, pelos críticos e pelos censores, se for o caso, em contraponto ao sentido nacionalista que as levou a serem excluídas dos sistemas nacionais africanas. Espera-se que da investigação possa emergir: 1. Uma cartografia completa e atualizada não apenas do corpus literário, como também de todo o material bibliográfico produzido em torno dessas obras; 2. Um olhar crítico menos ideologicamente esquemática para as histórias literárias, portuguesa e africanas, estas ainda por serem fixadas; 3. Um questionamento de caráter pós-colonial dos valores e das hierarquias propostas e propagandeadas por essas obras. Este último ponto torna-se sobremodo relevante, pois é também através da produção cultural (publicação de textos literários, obras cinematográficas, exposições) que o poder público português construiu e veiculou a propaganda imperial colonialista. Esses investimentos participaram da proliferação de hierarquias entre grupos étnicos, raças, culturas e saberes que, de fato, ultrapassaram as fronteiras cronológica dos impérios coloniais, tornando-se, portanto, um desafio urgente também na contemporaneidade.
PREC.PT - Performance e Teatro no PREC
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.10644.25ABR
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Estudos de Teatro
Investigador Responsável: José Pedro Sousa
Instituição de Colaboração: Círculo de Cultura Teatral/Teatro Experimental do Porto
Duração: 18 meses + 6 meses (01/09/2024 a 31/08/2026)
Financiamento: 25 000€
Resumo: O projecto financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia “Performance e Teatro no PREC” (DOI https://doi.org/10.54499/2023.10644.25ABR) visa recuperar a memória do teatro, o que se fez e como se fez, o que se pensou, escreveu, legislou e programou durante o Processo Revolucionário em Curso. 50 anos depois do 25 de Abril de 1974, o estado lacunar e disperso da investigação sobre o tema justifica uma reflexão detalhada sobre este período. Importa, assim, mapear os acontecimentos, recolher a documentação dispersa e entrevistar os agentes, de modo a estudar, disponibilizar e promover novas leituras que interessem ao presente. Procurando responder à pergunta “Como terá o teatro contribuído para a construção da democracia durante o PREC?”, assentaremos a investigação em três eixos principais: (i) activismo e intervenção; (ii) estética e ética; (iii) diversidade e inclusão.
O projecto propõe-se:
(i) sistematizar e disponibilizar os dados recolhidos em fontes primárias, directas e indirectas;
(ii) realizar um conjunto de entrevistas aos intervenientes no sistema teatral português daquele período;
(iii) desenvolver uma plataforma digital de arquivo oral e documental sobre o teatro em Portugal durante o PREC;
(iv) promover um curso acreditado sobre Teatro e a construção da Democracia;
(v) publicar um volume com os resultados do projecto.
Equipa: José Pedro Sousa (Investigador Responsável), Rui Pina Coelho (co-IR), Ariadne Nunes, Gustavo Vicente, Maria João Brilhante, Marta Rosa, Paula Magalhães e Vera San Payo de Lemos.
Centro de Estudos de Teatro (FLUL)
PT18 - Os presépios teatrais: Um reportório de bonecos, religião e humor no Portugal setecentista
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2024.13709.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Estudos de Teatro
Investigador Responsável: Marta Brites Rosa
Duração: 18 meses (01/02/2026 a 31/07/2027)
Financiamento: 58 901,88€
Resumo: No contexto europeu os presépios teatrais de bonecos tiveram origem em representações esculpidas em relevo do Nascimento do Menino Jesus (Maria, José, Jesus, os reis, o boi e o burro, os pastores) que evoluíram para esculturas mecanizadas, com alguns movimentos mecânicos e repetitivos, exibidas aos fiéis durante os ofícios sagrados, sobretudo no Natal e na Páscoa. Estas representações mecanizadas tinham como objetivo espalhar a fé cristã e educar as pessoas que assistiam às cerimónias religiosas, ensinando o Evangelho de uma forma mais lúdica e acessível (usavam o vernáculo, e não o latim). O interesse do público aumentou com a adição de cenas cómicas, resultando em apresentações profanas, posteriormente proibidas durante os ofícios sagrados pelo Concílio de Trento (séc. XVI). Forçados a sair do espaço sagrado, os responsáveis por estes espetáculos começaram a apresentá-los nas ruas, em feiras e mercados e a focar o seu repertório nas histórias que o público queria ouvir, mantendo alguns passos bíblicos, acrescentando outros que procuravam aproximá-los do público, através da atualização das personagens, dos locais e de alguns assuntos, que faziam parte do quotidiano de quem os ouvia. Desta forma, diferentes evoluções originaram diversas manifestações e repertórios (Badiou, 2010): em Espanha ficaram conhecidos os retablos (cuja palavra significa tanto relevos de figuras pintadas como cenário para títeres focados na representação da vida de Jesus); na Ucrânia, o vertep, que representa em simultâneo três níveis de histórias: o do Cosmos, da Bíblia e do quotidiano; na Eslováquia, as “peças de Belém” focam-se no nascimento de Cristo; em Itália é representado a Nascita del Bambino ou Natività; na Bélgica, Li Nêssance, sobre o nascimento, era representado no Natal ao longo de todo o dia; e em Portugal, os presépios.
Em Portugal eram descritos como “umas representações das circunstâncias do Nascimento de Cristo Senhor nosso com figuras vivas, em casas particulares, ou nas Igrejas. (…) ou umas representações, que põem aos olhos dos espectadores com as causas, motivos e circunstâncias do dito Nascimento, com várias figuras, aparências, perspetivas, diálogos, harmonias, e alegres entretenimentos.” (Bluteau, 1720: 712-713).
O projeto PT18 visa estudar detalhadamente pelo menos dois testemunhos de presépios setecentistas existentes em Portugal, localizados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) e na Biblioteca Pública de Évora, fazer a sua edição online em acesso aberto e uma edição em papel, acompanhadas de um estudo aprofundado. Os presépios representavam, maioritariamente através de bonecos, momentos da Sagrada Escritura, de que se evidenciava, para o público, não o caráter religioso, moral ou doutrinário, mas o cómico. Os poucos relatos do séc. XVIII dão conta de uma atividade dirigida a um público abrangente, com um conteúdo textual no qual o cómico, o religioso e o quotidiano se cruzam harmoniosamente, numa cenografia elaborada (Delgado apud Ribeiro, 2011). O facto de ser um género popular, itinerante e pouco documentado contribuiu para o seu olvido, do qual apenas pode recuperar graças a documentos dispersos, cujas informações é necessário coligir e interpretar. Muita da documentação refere-se a proibições ou outras formas de repressão sobre o teatro de bonecos, que tinha um público ávido e vasto, o que suscitava problemas vários às entidades eclesiásticas e governamentais. Para um estudo aprofundado dos presépios irá ser recolhida informação em vários arquivos e bibliotecas nacionais, esperando-se reunir documentação que nos informe sobre as representações e seus agentes, o público, e a receção por parte do Estado e da Igreja.
Os resultados do projeto serão publicados em open acess em duas plataformas do Centro de Estudos de Teatro (CET): Teatro de Autores Portugueses do séc. XVIII (TAPXVIII) e HTPonline: Documentos para a História do Teatro. A primeira plataforma disponibilizará o texto das peças com exaustivo aparato crítico, notas de leitura, vocabulário e respetivos fac-símiles; a segunda plataforma, disponibilizará os documentos relativos a presépios, com transcrição diplomática e atualizada (ou texto original e tradução, quando em línguas estrangeiras), imagens dos documentos e hiperligações para outras fontes.
Na atualidade existem em Portugal duas tradições que se aproximam dos presépios: os Bonecos de Santo Aleixo e as representações populares do Auto da Criação do Mundo em aldeias no Norte de Portugal, ambas focadas em repertório similar ao dos presépios, que será abordado enquanto herança viva dos mesmos.
Para além do estudo focado na realidade nacional portuguesa, um segundo nível de pesquisa debruçar-se-á sobre as outras evoluções do caráter evangelizador tendo em conta as várias ramificações na Europa e também na América do Sul (México e Brasil), procurando semelhanças e diferenças nas vários repertórios de peças com episódios bíblicos em tom jocoso para bonecos.
TAP18 - Teatro em Português Proibido e Censurado do Século XVIII
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.17177.ICDT
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Estudos de Teatro
Investigador Responsável: José Camões
Duração: 36 meses (01/01/2026 a 30/12/2028)
Financiamento: 242 568,00€
Resumo: O projeto centra-se na edição eletrónica de peças de teatro do século XVIII proibidas pela Censura.
Os manuscritos dividem-se em dois grupos: os que nunca foram impressos e os que foram objeto de cortes ou alterações após o exame censório.
Para estes, um novo software permitirá ao utilizador visualizar de forma sinóptica os fragmentos dos textos onde a censura interveio.
Esta edição vem resgatar parte do património teatral português.
UnderDig - Surrealismo-Abjeccionismo em Portugal. Da folha volante ao mundo digital
Entidade Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Referência: 2023.14574.PEX
Papel da FLUL: Instituição Proponente
Unidade de Investigação: Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias
Investigador Responsável: Rui Daniel Nascimento e Sousa
Duração: 18 meses (03/02/2025 a 02/08/2026)
Financiamento: 49 879,86€
Resumo: Este projecto tem como propósito o estudo da persistência de dinâmicas de repressão e condicionamento à expressão artística e cultural nas suas manifestações em termos da interacção entre os criadores e as diferentes esferas de poder estruturantes da cultura portuguesa, nas diferentes etapas de desenvolvimento da Modernidade. O projecto assenta em dois pilares fundamentais, em estreita articulação:
1. O desenvolvimento de um novo quadro teórico para a compreensão das peculiaridades da Modernidade portuguesa, atendendo ao modo como os sucessivos regimes repressivos condicionaram a expressão literária e artística em Portugal, motivando relações específicas com a tradição modernista e vanguardista internacional e suscitando procedimentos alternativos de edificação de conceitos como os de autor e de grupo literário e de produção e edição textual. Assim, propõe-se uma revisão da Modernidade cultural portuguesa atendendo à interferência do contexto político no modo como se foram configurando os principais eixos estruturantes da noção ocidental de Modernidade. No âmbito de um projecto exploratório, o contexto específico do Surrealismo Português e, em particular, o caso de estudo de Luiz Pacheco serão considerados como pontos de partida para uma reflexão de alcance mais vasto.
2. Paralelamente, propomos o desenvolvimento de uma base de dados digital que, numa primeira fase, servirá de estrutura centralizadora das diferentes actividades a desenvolver como expressões da investigação a desenvolver, e, posteriormente, terá como intuito a catalogação das diferentes componentes da obra dispersa e em grande parte desconhecida e inédita de Luiz Pacheco, representativa dos problemas em apreço. Essa base de dados será, no futuro, utilizada como arquivo dos documentos conservados no espólio do autor, gradualmente transcritos e disponibilizados para consulta em acesso aberto (manuscritos, dactiloscritos, registos áudio, marginália da biblioteca pessoal).
Financiamento Internacional
ARTIVES - City tales: an art-based participatory framework for studying migration-related diversity
Entidade Financiadora: European Research Council
Referência: 101117068
Papel da FLUL: Instituição Participante
Unidade de Investigação: Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias
Instituição Proponente: Universiteit Leiden
Investigador Responsável: Kamila Krakowska Rodrigues
Duração: 60 meses + 9 meses (01/01/2024 a 30/09/2029)
Financiamento: 1 499 353,00€ (Global), 357 175,00€ (FLUL)
Resumo: Afro-European arts offer an excellent platform to explore the nuances of postcolonial urban life and transnational sense of belonging that are, however, often ignored in mainstream public discussions. In this context, the ERC-funded ARTIVES project will study imaginaries of diversity portrayed by Afro-European artists in Lisbon and Rotterdam. It will create 'urban artistic archives' (called 'artives') to explore ways of approaching migration-related diversity in a non-essentialist way. The project will analyse creative forms of storytelling, follow artists in their city wanderings, digitally map spaces of inspiration, production and performance, and produce two creative outputs. In this way, ARTIVES will bridge the symbolic, material and affective aspects of how urban communities realise their sense of belonging within highly diverse cities.