Formada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lídia Jorge acaba de ser galardoada com o prémio Pessoa 2025, que presta reconhecimento a individualidades marcantes nas ciências, nas artes ou na literatura.
A carreira literária de Lídia Jorge está indelevelmente ligada ao 25 de Abril, uma das forças motrizes para o seu primeiro romance e não só. A afirmação pública da escritora acompanha também a história do regime democrático, sendo hoje uma das poucas mulheres com assento no Conselho de Estado, a par de Leonor Beleza e de Joana Carneiro. A visibilidade mediática que teve nas celebrações do 10 de Junho deste ano é passageira, como é passageira a atenção de quem discursa nestas ocasiões. Mas por momentos teve palco a evocação de Camões, chamado por Lídia Jorge para se falar de todos nós pessoas imperfeitas e vulneráveis: «Onde pode acolher-se um fraco humano, | Onde terá segura a curta vida | Que não se arme, e se indigne o céu sereno | Contra um bicho da terra tão pequeno». O discurso serviu para um retrato desejado de Portugal como terra hospitaleira e avessa a excessos identitários. Mas, sobretudo considerando uma porção de tempo mais ampla do que a desse dia, tal atenção à fragilidade humana instala-se cedo e persiste na escrita de Lídia Jorge.
O prazer da redacção começa a estabelecer-se quando, ainda miúda no interior algarvio, os amigos são mais encontrados nos livros da biblioteca doméstica do que dentro e fora da casa onde vivia. Para a família, cultiva a leitura em voz alta de narrativas camilianas, que a impressionam pelos enredos infelizes e que a induzem a escrever histórias correctivas com vista para a harmonia. A estreia chegará bem mais tarde, já passados os trinta anos, com a publicação de O Dia dos Prodígios, em 1980. É este um marco de percurso pontuado regularmente por novos títulos até aos dias de hoje. E é um marco auspicioso pelo apreço que suscita a leitoras tão diferentes quanto Maria da Glória Padrão (que a emparceira com Mário Cláudio, José Saramago e Agustina Bessa-Luís enquanto escritores que fazem da história com maiúscula a sua matéria ficcional) e Maria Teresa Horta. A adesão desta última não tem paráfrase que lhe faça justiça: «Lídia Jorge, que escreveu o romance do ano, O Dia dos Prodígios, sobre o qual já afirmei mil vezes ser um livro uterino, visceral – no sentido menstrual, ovular; mágico porque universo assumidamente feminino. Linguagem assumidamente de mulher. Jamais na nossa literatura uma mulher conseguiu ir tão longe na observação dos outros e da sociedade onde nos integramos». Com estreia assim, os riscos de se tornar escritora de uma obra só ou de o caminho seguinte ser descendente eram patentes. No entanto, embora com recepções desiguais, as sucessivas obras de Lídia Jorge continuaram a suscitar grande apreço de leitores com posicionamentos bem diferenciados no mundo literário, de Urbano Tavares Rodrigues a Paulo de Medeiros, de Maria Alzira Seixo a Maria Irene Ramalho. Os prémios com que tem sido galardoada, em Portugal e no estrangeiro, desde o prémio Malheiro Dias (logo em 1981) até às muitas distinções outorgadas a Misericórdia, romance de 2022, sinalizam que a obra literária de Lídia Jorge toca muitas e variadas sensibilidades.
Numa via pontuada por tantas expressões de reconhecimento tão constante, a Faculdade de Letras associa-se ao júbilo ocasionado pela atribuição a Lídia Jorge do Prémio Pessoa 2025. E nesta ocasião evoca uma definição luminosa que a escritora deu da criação literária: «chega-se a um ponto que não é, que não tem mensagem, que é alguma coisa que é uma espécie de construção de um sítio habitado por vozes e por figuras onde a pessoa se sente bem lá dentro».