À Conversa Sobre o Novo Edifício com os Arquitetos

Em preparação para a inauguração do Novo Edifício da FLUL, a Faculdade de Letras conversou com a equipa de arquitetos.

a conversa novo edificio equipa arquitetos noticia copiaTodos os detalhes acerca do Novo Edifício podem ser consultados nesta página, que acolhe notícias, testemunhos, particularidades sobre a construção e muito mais.


"Não há motivo algum para que o edifício da Faculdade de Letras não tivesse servido de inspiração face à riqueza, carácter e qualidade nele existente. A boa arquitetura é e será sempre inspiradora. "

 

P.: A toda a equipa de arquitetos – à Arquiteta Manuela Oliveira, à Arquiteta Ana Raquel Ferrão, ao Arquiteto Bruno Pereira e ao Arquiteto Gilberto Pedrosa – começo por vos agradecer a vossa presença e disponibilidade para esta breve entrevista, que assinala a aproximação da inauguração do Novo Edifício de Letras.
Ainda em janeiro de 2024, por ocasião da exposição que anunciava o projeto do Edifício, a Arquiteta Manuela Oliveira sublinhou que uma das principais preocupações foi garantir que a nova construção se articulava com o conjunto arquitetónico da Cidade Universitária. Na medida em que se insere num complexo arquitetónico considerado Património Nacional, o Novo Edifício foi concebido em diálogo com o conjunto Pardal Monteiro. Pergunto-vos como se conseguiu o equilíbrio entre memória e modernidade, criando um edifício que, sem se impor, consegue ser também símbolo da arquitetura contemporânea.

R.: No caso concreto da Cidade Universitária, veio a manifestar-se no olhar de Patrícia Pedrosa na sua tese sobre A Cidade Universitária de Lisboa, Vazios e Cheios Urbanos ou as Géneses Alimentadoras de Equívocos, referindo que ”o modo como a génese deste território - programaticamente uno - é traçada, marcará a longo prazo, o seu carácter não coeso e de difícil apropriação urbano-simbólica. E é a experiência atual deste pedaço de cidade quem assim o caracteriza” e mais adiante refere “As fragmentações e hesitações das ideias suportam e orientam o crescimento deste território. No cruzar deste objeto – a Cidade Universitária de Lisboa - com as suas referências históricas e com o enquadramento escolhido, esperamos lançar pistas para a leitura do carácter de incompletude de que alguns territórios, ainda que materialmente preenchidos, se constituam como talvez-vazios. Difíceis, territórios estes, com a escassez vivencial de tantos vazios urbanos, mas sem o potencial reelaborante que quase todos os tais vazios apresentam”. Este olhar deverá merecer a reflexão de quantos os envolvidos na vida da Cidade Universitária.

Atualmente a Universidade de Lisboa tem vindo a contrariar esta visão, promovendo e desenvolvendo esta área, com a criação de residências universitárias, com a viabilização da requalificação paisagística de toda a área verde, incluindo a ampliação das instalações da Faculdade de Letras, onde estamos envolvidos. A Direção Geral do Património (designação à data da elaboração do projeto - 2020) impôs mesmo a possibilidade de execução de um edifício gémeo /simétrico daquele que se estava a promover com o fundamento de se obedecer a um dos princípios compositivos fundadores da Cidade Universitária – o da simetria. Esta posição por parte da então DGPC obrigou à elaboração de um “Estudo Urbanístico Sintético”, o qual não estava previsto aquando do lançamento do concurso.

Quanto à viabilização do novo edifício, enquanto peça integrante do complexo da Faculdade de Letras, respeitando tanto a sua memória histórica como a sua projeção para o futuro, o ponto de partida surge, naturalmente, dos pressupostos enunciados no Programa Preliminar (PP) do concurso onde é solicitada a implantação de um edifício autónomo e onde são estabelecidos parâmetros urbanísticos, nomeadamente, limite da área de intervenção, volumetrias, cérceas, n.º de pisos, entre outros, e que este deveria ser entendido ”como a 1.ª fase de um conjunto de edifícios que possam vir a ser construídos na área, não devendo portanto inviabilizar outras possíveis intervenções”.

Assim sendo, e tendo em conta que o novo edifício, com uma área bruta de 4.468m2 é um complemento dos edifícios existentes - devendo apenas ser entendido como tal, foi nossa preocupação o estudo das acessibilidades/mobilidade e circulações e da envolvente paisagística de toda a edificação, sendo que apenas poderíamos intervir numa área de 4.000m2, isto é, a envolvente imediata. Quando foi encontrada a solução que a equipa viria a desenvolver, talvez que a zona que veio a ter mais impacto fosse a zona nascente onde criámos pequenos anfiteatros junto à alameda, proporcionando um ambiente acolhedor e a realização de atividades enquadradas num contexto académico. Decidimos que o acesso principal ficaria voltado para o edifício da Reitoria – fachada sul - cuja distância favorece a criação de uma razoável área verde. Quanto às fachadas poente, voltada para a Av. Professor Gama Pinto e norte para uma zona verde, mas com potencial expansivo da ULisboa, terá de ser feito um estudo de enquadramento sendo que nesta fase apenas assegurámos circulação envolvente e um pequeno corredor verde para não deixar aproximar pessoas e dar alguma privacidade e tranquilidade às aulas ministradas no Piso térreo.

Conhecendo bem o edifício da Faculdade de Letras, tanto os princípios compositivos como os valores arquitetónicos nele representados, avolumou-se a responsabilidade de encontrar uma solução que convivesse bem com o edifício de Porfírio Pardal Monteiro. Como refere e muito bem Dominique Pérrault – uma referência para mim – “há uma parte de nós que medimos ...e uma outra que intuímos”. Uma coisa é certa: a partir de uma planta simples e ordenada, em torno de um pátio interior, com uma distribuição espacial e funcional também simples e regular (onde a atividade pedagógica se localizava no piso térreo e gabinetes nos pisos superiores) foi possível encontrar entre variadas opções de fachadas a que veio a ser escolhida e desenhada pelos Arqts. Bruno Pereira, Ana Raquel e Gilberto Pedrosa. Queremos sempre individualizar as nossas opções, mesmo que inspiradas noutras... Não há motivo algum para que o edifício da Faculdade de Letras não tivesse servido de inspiração face à riqueza, carácter e qualidade nele existente. A boa arquitetura é e será sempre inspiradora. Feliz o momento em que o Arqt. Bruno Pereira, com um rasgo de imaginação, criou uma estrutura com geometrias e ritmos que vieram a determinar a solução projetada. Solução esta onde o piso térreo é interpretado de forma diferenciada do piso superior, soltando-se dessa estrutura, enunciando, com concisão, um sinal que fez parte do diálogo com o edifício de Pardal Monteiro.

 

P.: Como se pensou a relação arquitetónica da obra com o edifício Pardal Monteiro, e de que modo se asseverou uma continuidade visual entre as diferentes infraestruturas da Faculdade e da Cidade Universitária?

R.: Em parte, a resposta está dada na questão anterior, acrescentando que a continuidade visual é garantida na solução volumétrica, cromática, na métrica dos envidraçados, na repetição das fachadas, etc. A alameda nascente, onde são feitos acessos ao edifício Pardal Monteiro (nos topos), permitirá uma ligação fácil entre edifícios, onde também foi considerada a acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida. Na realidade, a Cidade Universitária dispõe da “Cantina Velha” (um belo edifício dos Arqts. Norberto Correia e Rafael Miranda), infraestrutura localizada a poente e muito perto do novo edifício. Mas é um facto de que a Faculdade de Letras também dispõe, nas suas instalações, de pequenas cantinas e bares, pelo que desconheço até que ponto esta infraestrutura é utilizada pela Faculdade. Talvez pelos alunos com benefícios sociais.

 

P.: Gostaria que se debruçassem brevemente acerca das opções estéticas e funcionais que orientaram o desenho arquitetónico. Como se aliaram luminosidade, funcionalidade pedagógica, circulação e integração de espaços verdes?

R.: A questão estética dos edifícios e as opções que se tomam têm sempre a ver com a nossa formação enquanto arquitetos e o que nos emocionou ao longo do nosso percurso. É muito composta de matérias abstratas que são a vida e o silêncio. A nossa cultura arquitetónica, associada à nossa sensibilidade, determina em parte as opções e o caminho que queremos seguir. O julgamento já não será feito por nós...

No caso específico da construção escolar, de natureza pública, os desafios que se colocam são tantos que nos vemos, por vezes, confrontados com um emaranhado de opções, às vezes difíceis de tomar. Uma coisa é certa: as limitações financeiras condicionam de forma significativa soluções e caminhos por onde gostaríamos de ter seguido.

Funcionalmente, o projeto foi desenvolvido prevendo todas as 25 salas de aula no piso térreo e os cerca de 80 gabinetes de professores, simples, duplos e triplos, nos pisos superiores. Foram consideradas ainda outras áreas previstas no PP destinadas ao desenvolvimento das línguas e que, em termos de tipologia, constituem apenas gabinetes, salas de reuniões ou secretariados, localizadas no piso 3, e que em termos de expressão de áreas não têm peso no contexto do edifício.

Todos os espaços têm, naturalmente, comunicação visual com o exterior. Particularmente nos gabinetes de professores, optou-se por pequenas varandas com portas totalmente envidraçadas, permitindo um bom arejamento natural e muito boa luminosidade.

Tendo consciência das transformações e evolução da sociedade e, em particular, nas áreas de ensino, e da forma como o conhecimento é transmitido, optámos por utilizar, nas divisórias de todos os espaços e em todos os pisos, painéis de gesso cartonado. Trata-se de um material que, em caso de alteração funcional, será sempre fácil demolir e ajustar a novas exigências e necessidades. Esta é uma das qualidades construtivas com reflexo na funcionalidade que mereceu todo o nosso cuidado.

 

“Conhecendo bem o edifício da Faculdade de Letras, tanto os princípios compositivos como os valores arquitetónicos nele representados, avolumou-se a responsabilidade de encontrar uma solução que convivesse bem com o edifício de Porfírio Pardal Monteiro.”

 

P.: No domínio da sustentabilidade e das boas-práticas ambientais, que medidas integram o novo edifício? Falo de soluções de isolamento, de eficiência energética, materiais e técnicas construtivas sustentáveis.

R.: Com muita felicidade, foi possível irmos ao encontro de soluções que justamente visam as boas práticas ambientais, otimizam recursos e promovem o conforto e o bem-estar dos seus utilizadores. Na área da térmica, foram utilizadas soluções passivas, minimizando o recurso a sistemas ativos. Estes sistemas promovem a circulação natural do ar, um bom isolamento térmico, e a captação solar direta.

Construtivamente, as fachadas exteriores são constituídas por tijolo térmico, aglomerado negro de cortiça (ICB) e argamassas térmicas de revestimento. Todos os pavimentos, paredes e tetos estão isolados termicamente. Nenhuma fachada tem a mesma tipologia de vidro – foi estudado para cada uma um vidro diferente, tendo em conta a exposição solar. Serão sempre vidros duplos, laminado no interior, garantindo a segurança, e temperado no exterior, garantindo maior resistência a impactos e choques térmicos. Em caso de catástrofe, estão projetados, em locais específicos e assinalados, os vidros que permitirão o acesso rápido através da sua quebra, tendo-se utilizado, nestes casos, apenas duplos e temperados.

Outra grande preocupação foi a da área de acústica. Todas as salas e espaços, incluindo os de circulação, consideram isolamento acústico em paredes, pavimentos e tetos, com particular incidência nas salas de aula onde foi proposto, para os tetos, o mais ecológico de todos os materiais, composto por fibras de madeira de abeto, cimento Portland (feito a partir da queima de calcários e argilas), pó de mármore e água, vulgarmente designados por Celenit. Estes painéis evitam a reverberação sonora e ajudam a manter a temperatura estável. São resistentes ao fogo e à humidade. Como é respirável, previne o aparecimento de bolores. É utilizado há muitos anos na maior parte dos edifícios de ensino em toda a Europa.

A climatização e a circulação do ar estão asseguradas com recurso a sistemas “VRF” de climatização, proporcionando conforto, flexibilidade e versatilidade, sendo um sistema silencioso. Trata-se da tecnologia mais eficiente do mercado e altamente sustentável, podendo garantir uma significativa economia energética e redução no impacto ambiental.

Na cobertura plana invertida (a impermeabilização está junto à laje e o isolamento na parte superior) foram instalados os painéis fotovoltaicos para a produção de energia elétrica, permitindo, naturalmente, reduzir a fatura elétrica.

O edifício dispõe de GTC (Gestão Técnica Centralizada) tratando-se de um sistema informático que permitirá controlar e monitorizar automaticamente todos os equipamentos mecânicos e elétricos.

 

P.: Pergunto de que modo se imaginou a vida neste edifício. Como se articulam espaços interiores e exteriores? Como projetaram zonas de convívio académico e percursos pedonais?

R.: A vida neste edifício está confinada à atividade pedagógica, ao trabalho letivo, à troca de conhecimento. O edifício disporá de tecnologias informáticas modernas, promovendo o desenvolvimento de competências digitais. O uso dos tablets possibilitará o acesso à internet e recursos multimodais – vídeos, áudios, textos digitais. A literacia digital dos alunos e professores é fundamental para o sucesso das ferramentas que poderão vir a ser disponibilizadas.

Os gabinetes de professores permitirão um trabalho a ser desenvolvido com autonomia e silêncio.

O pátio interior descoberto poderá vir a proporcionar eventos e atividades académicas contribuindo para um enriquecimento da vida neste edifício, sem desvirtuar todos os espaços ricos e qualificados que pertencem à Faculdade de Letras.

 

“A nossa cultura arquitetónica, associada à nossa sensibilidade, determina em parte as opções e o caminho que queremos seguir. O julgamento já não será feito por nós…”

 

P.: Finalmente, gostariam de acrescentar algo acerca do Novo Edifício?

R.: A complexidade do projeto envolveu todas as áreas de engenharia nos domínios da construção civil, respetivamente, estabilidade, eletricidade, comunicações, climatização, térmica, acústica, mecânica, paisagismo, segurança, higiene e saúde e ambiente, o que obrigou a uma interdisciplinaridade normal para este tipo de atividade, sendo que, para o arquiteto, o problema será sempre garantir a coerência do projeto.

O facto da DGPC ter condicionado a aprovação do projeto à garantia de, no futuro, se poder construir um edifício simétrico, obrigou a que a “arquitetura” alterasse a implantação do seu edifício e a avançasse cerca de 20m no sentido norte/sul e cerca de 3m no sentido nascente/poente. Como é óbvio, esta alteração na localização do edifício teve impacto no desenvolvimento do projeto.

Por outro lado, ocorreram alterações legislativas regulamentares em várias áreas, no domínio sísmico, na térmica e na segurança contra incêndios. Tal situação foi também impactante no desenvolvimento dos trabalhos, obrigando a um trabalho adicional.

Desejamos que seja um edifício vivo, capaz de acompanhar todas as transformações que a sociedade exige.

Desejamos que outras intervenções artísticas, como a pintura ou a escultura, venham a fazer parte desta obra, como tão bem nos ensinou Pardal Monteiro, tornando o edifício mais rico. Quanta riqueza plástica no “Memorial de Personagens Histórico-Literárias” da fachada principal, num Programa Decorativo dedicado aos Estudos Humanísticos, onde o génio de Almada Negreiros nos engrandece com o seu desenho gravado na pedra, ou nas tapeçarias de Portalegre, ou nas esculturas de Leopoldo de Almeida...

Agradecemos à Reitoria, em particular, ao Gabinete do Edificado, toda a contribuição e colaboração para que este Projeto / Procedimento Concursal da Empreitada / Obra tivesse ocorrido por forma a não ter criado situações desconfortáveis durante a obra, para todos os envolvidos.

Agradecemos às duas Direções da Faculdade de Letras, que, em diferentes momentos, acompanharam este processo, nos estimularam, entusiasmaram e nos deram toda a confiança de que teriam um edifício que correspondia aos desejos desta Escola. A equipa ficará sempre grata.

 

 

 


Esta entrevista faz parte de um conjunto de conversas com os principais envolvidos na conceção e desenvolvimento do Novo Edifício da Faculdade de Letras da ULisboa, publicadas no website da FLUL e nas suas redes sociais.

A entrevista em vídeo está também disponível na página de Youtube da FLUL.

 

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A obra do Novo Edifício da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa foi financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (recuperarportugal.gov.pt), no âmbito do projeto Impulso Adulto e Jovem STEAM.