
Manuel Ferreira (Leiria, 1917 – Oeiras, 1992) foi escritor, ensaísta e professor, reconhecido como um dos principais especialistas e divulgadores das literaturas africanas de língua portuguesa. A sua obra e percurso foram profundamente marcados pela passagem por Cabo Verde e pela defesa da cultura como forma de resistência ao colonialismo.
Formou‑se em Farmácia na Escola Médica de Goa e licenciou‑se em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa. Preso por motivos políticos entre 1938 e 1939, serviu como oficial do Exército nas antigas colónias portuguesas: Cabo Verde (1941‑1947), Índia (1948‑1954) e Angola (1966‑1967). Em Cabo Verde casou com a escritora Orlanda Amarílis (1915‑2014) e conviveu com escritores locais, contacto que influenciou a sua ficção e despertou o interesse pelas literaturas africanas de língua portuguesa.
Foi professor na FLUL, onde, após o 25 de Abril, introduziu e leccionou a cadeira de Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa até à sua morte. É autor de vasta obra de romance, ensaio, antologia e bibliografia, traduzida em várias línguas. Fundou e dirigiu a revista África (1978‑1992) e as Edições ALAC – África, Literatura, Arte e Cultura.
Entre as suas obras de ficção destacam‑se Hora di Bai (1962), Voz de Prisão (1971) e Terra Comida (1972). No domínio ensaístico publicou Que futuro para a língua portuguesa em África? (1988) e O discurso no percurso africano (1989). Dedicou‑se também à literatura infantil, com livros como O Sandinó e o Corá (1964), A Maria Bé e o finório Zé Tomé (1970), A pulseirinha de ouro (1971), Quem pode parar o vento (1972), O gato branco e o gato maltês (1977) e No tempo em que os animais falavam (1970), obras marcadas por temas de raiz popular e ambientação africana.
A sua biblioteca pessoal, juntamente com a de Orlanda Amarílis, foi doada à Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 2014, resultando na adição de cerca de 5500 novos registos.

Orlanda Amarílis Lopes Rodrigues Fernandes Ferreira (Santiago, Cabo Verde, 1915 – Lisboa, 2014) foi uma destacada contista cabo‑verdiana. Fez os estudos primários e secundários no Mindelo, completando‑os em Goa, onde concluiu o Curso do Magistério Primário. Após seis anos na Índia, já em Portugal, cursou Ciências Pedagógicas na FLUL e completou o curso de Inspectores do Ensino Básico.
Estreou‑se literariamente na revista Certeza (1944), grupo a que pertenceu e que constituiu uma das mais relevantes manifestações culturais cabo‑verdianas do pós‑Claridade. Colaborou em várias revistas literárias e está representada em numerosas antologias em português, alemão (Frauen in der Dritten Welt, 1986) e inglês (Across the Atlantic: An Anthology of Cape Verdean Literature, 1988). Os seus contos foram também traduzidos em russo, húngaro, holandês e italiano.
Publicou a sua primeira colectânea, Cais‑do‑Sodré té Salamansa, em 1974. Dedicou‑se igualmente à literatura infantil, com obras como Ilhéu dos pássaros (1982), A casa dos mastros: contos cabo‑verdianos (1989), O Sandinó e o Corá (1964), A Maria Bé e o finório Zé Tomé (1970), A pulseirinha de ouro (1971), Quem pode parar o vento (1972), O gato branco e o gato maltês (1977) e No tempo em que os animais falavam (1970). Em colaboração com Maria Alberta Menéres, publicou ainda livros de leitura para o ensino básico (1987).
Filha de Armando Napoleão Fernandes, autor do primeiro dicionário crioulo‑português, pertence a uma família ligada a várias figuras literárias cabo‑verdianas. Os seus contos reflectem tanto a memória das ilhas como a experiência da diáspora cabo‑verdiana.
Promoveu a reeditação integral da revista Mensagem da Casa dos Estudantes do Império, projecto iniciado por Manuel Ferreira, seu marido. A sua biblioteca pessoal, juntamente com a do marido, foi doada à Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 2014.
[Fotografia: disponível em https://brito-semedo.blogs.sapo.pt/morreu-a-escritora-orlanda-amarilis-471043]
Isabel Castro Henriques (Lisboa, n. 1946) é uma das mais influentes especialistas em História de África, colonialismo e relações afro‑portuguesas. Formou‑se na Universidade de Paris I – Panthéon‑Sorbonne, onde concluiu a Licence em História (1973), a Maîtrise (1974), o DEA (1984) e o doutoramento em História de África (1993), com a tese Commerce et changement en Angola au XIXe siècle.

